A professora Anaci Paim, que já foi reitora da Uefs, secretária municipal e estadual de Educação, foi a primeira entrevistada, nesta segunda-feira (05) na semana de debates sobre a qualidade da educação pública no município, promovida em parceria pela Tribuna Feirense e pelo programa Rotativo News, que vai ao ar de segunda a sexta-feira na rádio Sociedade AM.
À frente da Academia da Educação, instituição da sociedade civil que reúne profissionais para discutir questões da área, Anaci faz uma análise da situação da educação e defende o ensino integral como uma necessidade imperiosa. Mas alerta, na entrevista concedida ao editor da Tribuna, Glauco Wanderley, que ela não pode ser só mais um turno na escola, mas estar integrada ao currículo, para ser também um momento de aprendizado.
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Por que o tempo passa e a escola pública não melhora?
No início do século, nos primórdios da educação brasileira, o número de pessoas matriculadas na escola pública era muito pequeno. A maioria que tinha acesso à educação tinha educação privada. Hoje aqui na Bahia, mais de 92% de quem estuda, estuda na pública. Não posso dizer a você que é um único fator. A valorização do professor é super importante, mas não é o único fator. A escola está divorciada da comunidade e ela precisa cada vez mais de interação com a comunidade. Porque ela precisa ter a família como forte elo também de formação e tem que trabalhar em conjunto. Tem também a melhoria da infraestrutura. O aluno chega numa lan-house e é mais divertido do que na escola.
Como fazer para motivar o estudante?
Hoje o aluno tem acesso à informação em uma quantidade e diversidade muito grande de mídias e essa informação é mais diversificada e interessante e a escola não trabalha com ela, transformando em conhecimento. Então é necessário tornar a escola prazerosa. Um ambiente em que o aluno chegue e tenha prazer de estar porque é motivador. Precisa rever as práticas pedagógicas para que elas se tornem mais interessantes. Um outro aspecto é que temos uma distorção idade-série muito grande. Então você tem alunos que estão com uma visão de mundo distinta daquela que a escola vai oferecer. Passou da idade certa para aquele ano, precisa ter o currículo adequado a esta faixa etária pra sentir-se atraído para permanecer na escola. É preciso que o ambiente escolar seja mais completo. A sala de aula convencional do quadro e do giz é muito pouco pra atender a nova expectativa de quem tem um mundo ao seu redor muito mais diverso. É necessário ter um laboratório experimental onde se possa desenvolver experimentos simples, sem equipamento sofisticado mas que exista uma prática efetiva. É necessário ter o laboratório da informática pra possibilitar também que ele explore esse conhecimento usando uma outra possibilidade que está ao seu alcance. É necessário que tenha salas de leitura, biblioteca, pra ele sair do livro obrigatório didático e vá explorar o mundo de uma outra maneira, pra ele saber ler corretamente o livro, mas também ler o texto que está no livro e o contexto em que está inserido.
A escola não tem um conteúdo excessivo?
Há uma preocupação exacerbada em cumprir os 200 dias letivos, divididos em quatro unidades ou três unidades, dando aquele conteúdo como se fosse um receituário. Tenho que ter aquelas iguarias ministradas, o aluno tem que consumir e eu tenho que dar esse recado. Muitas vezes a pressa de que ele passe, na pressa de que ande o ano letivo e cumpra-se o calendário, não se preocupa muito com o domínio de competências e habilidades. Então se o aluno, por exemplo, nos anos iniciais, não dominar as competências e habilidades próprias da idade, perdeu o timing. Vai ter dificuldade ao longo de todos os anos, inclusive na universidade. Meu aluno de Geografia, na universidade, quando eu ia trabalhar com latitude, longitude, Norte/Sul, Leste/Oeste, ficava se guiando pelas mãos, para saber qual era a direita e a esquerda. Porque a competência, a habilidade da lateralidade, que poderia ter sido explorada quando ele estava ainda nos anos iniciais, não foi. Ele vai com essa deficiência ao longo da vida.
O professor da educação fundamental e do ensino médio é capacitado o suficiente?
Os cursos de Pedagogia são os que têm de habilitar esse professor. Hoje pela lei quem prepara o professor de educação infantil e anos iniciais é Pedagogia. São reconhecidos e autorizados em cima de critérios, exigências. São reconhecidos, mas a prática às vezes não está tão antenada com o dia a dia da escola. Por exemplo, instituiu-se em 2010 a obrigatoriedade do ensino fundamental com seis anos de idade. Quais os cursos de Pedagogia que naquela época já estavam preparando esses profissionais para trabalhar com a metodologia adequada para a escola iniciar com seis anos? Terá que ter programa de formação continuada. Nós somos eternos aprendizes.
A educação profissionalizante generalizada seria um caminho para dar um sentido maior à escola?
Pra mim o que tem que ser generalizado com qualidade é a básica. Tenho que ter o aluno na idade certa, cumprindo o ano escolar, reduzir a distorção idade-série. Com ela, além de gerar prejuízo para o aluno na vida profissional, porque ele retarda o tempo de ingresso, não permite a continuidade dos estudos, faz com que eu utilize o mesmo recurso três, quatro vezes, pra mesma pessoa. Precisa ter uma escola básica de qualidade. A educação profissional é importante sim, porque nem todos que estão na escola básica vão fazer vestibular, ter uma carreira universitária e a sociedade também precisa de técnicos. Então eu sou a favor, principalmente para quem está fora da faixa etária, que associe o ensino médio ao ensino profissionalizante.
O tempo integral é uma necessidade para atingir a qualidade?
Tempo integral é uma necessidade imperiosa. Quem afirmou isso e desenvolveu práticas importantes, fundamentais, há quase uma centena de anos, foi Anísio Teixeira. Os países como o Chile, por exemplo, pra ficar na América do Sul, que conseguiram melhorar o nível de desenvolvimento da aprendizagem, o desempenho do aluno, foi com escola de tempo integral. Nossa jornada é muito pequena. O aluno tem quatro horas. Se você considerar que tem uma aula vaga, que acontece sempre, que tem o intervalo, é muito pouco tempo pra ficar na escola dedicado ao estudo. A escola de tempo integral está no Plano Nacional de Educação como uma meta prioritária. 50% da matrícula na rede pública até o final da década tem que estar ofertada com tempo integral. Mas tem que se pensar em um modelo de educação integral que efetivamente contemple um currículo integrado. Tem proposições no Brasil em que de manhã é a aula regular e de tarde é atividade lúdica. Não é isso que é escola em tempo integral. Escola em tempo integral é um currículo integrado formador de uma potencialidade definida pelas diretrizes curriculares, um currículo integrado o dia todo, numa jornada mais ampla. Pra isso tenho que ter uma escola com infra-estrutura melhor. Com sanitários, com banheiros. Com o calor que temos a maior parte do ano, o aluno não fica na sala de aula. Fica, querendo sair. Está se sentindo obrigado. Ele tem que sentir prazer de estar ali. Então se podem desenvolver as práticas das ciências, físicas e biológicas e naturais de forma melhor, porque você vai ter o aluno mais disponível. A prática da leitura pode ser desenvolvida num tempo maior. Enfim, o currículo tem que ser pensado de forma integral.