Deve-se ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) duas decisões que reinventaram o país. A primeira delas foi o Plano Real, o maior e mais bem sucedido plano econômico que já tivemos, elaborado quando ele comandava o Ministério da Fazenda, no governo Itamar, e mantido no seu mandato. A segunda foi o ovo da serpente da reeleicão que sua vaidade Sorbonica legou ao país aniquilando e envenenando o sistema político e a confusa democracia brasileira.
Essa semana, em uma mea-culpa FHC reconheceu o erro da famosa medida que a implantou, comandada pelo ex-Ministro Sérgio Mota, uma espécie de trator, que veio a falacer depois. As lendas sobre a forma de aprovação não são nada republicanas. A partir daí de prefeito a presidente, só se exerce um mandato pensando no próximo, custe o que custar, geralmente guiado pelo mais custoso populismo e suas viriantes de prontuário policial.
FHC disse: " devo reconhecer que historicamente foi um erro”. Estudioso, inteligente, FHC sabia seus efeitos colaterais, mas não se importou de servir sua toxicidade ao futuro do país. Não nos cabe, perdão.
A Lava-Jato, a maior operação de combate a corrupção do mundo, mexeu no mecanismo de exploração corrupta do Estado e na leniência que permitia a impunidade grandes criminosos, grandes ladrões de verbas públicas. Os inimigos reagiram, começaram a enfraquecer a operação maximizando e explorando os mínimos equívocos, insignificantes em uma operação desse porte, para reduzir seu raio de ação.
Com a chegada ao poder do truculento Augusto Aras, escolhido por Bolsonaro fora da lista tríplice do MP- o que já sinalizava que tinha prestígio limitado entre seus pares- a Lava-Jato foi posta nas cordas. Começou com a tentativa de coletar os dados da operação- felizmente barrado pelo STF-, acusações sem provas, bate-boca em reunião no Conselho do MP, e culminou, essa semana, com o afastamento de Deltan Dallagnol, Coordenador da Lava-Jato, em Curitiba, e figura mais conhecida.
A saída de Deltan foi acompanhada do pedido de afastamento de 8 procuradores da Lava-Jato, de SP, e do único procurador exclusivo da Operação Greenfeld. A debandada expõe um MP em guerra.
A destruição da lava-Jato é conduzida sob os aplausos das facções criminosas, eleitas ou não, o beneplácito de Toffoli, o silêncio obsequioso da família Bolsonaro, e a aprovação cúmplice do Congresso, onde se reúne os maiores interessados, inclusive o Centrão, novo braço de apoio ao governo federal.
Augusto Aras já disse que "o lavajatismo há de ser superado pelo natural, bom e antigo enfrentamento à corrupção”, exatamente aquele que gerou 500 anos de impunidade.
A terra arrasada e a vitória dos criminosos será o legado do PGR.
O presidente Jair Bolsonaro declarou que não pode ser "irresponsável de injetar uma vacina sem comprovação científica". É o mesmo presidente que recomendou o uso universal da cloroquina, sem nenhuma comprovação científica.
A súbita conversão à ciência mostrou apenas falta de coêrencia.
Durante mais de 500 anos o patrimonialismo, a corrupção, o desvio do dinheiro público, a impunidade, a criação de leis que dificultavam a punição da elite corrupta, foram o tom dominante nesse país. Um consórcio que uniu Judiciário, Legislativo, Executivo, empresários, sistema financeiro, policial, e outros parasitas indiretos, que sugaram esse país implacavelmente, nos condenando a miséria, aos serviços degradantes, enquanto construíam biografias de sucesso e fortunas incalculáveis. Assim foi nossa história.
Houve, no entanto, uma vez, uma única vez, em que a espinha dorsal da corrupção foi quebrada, políticos poderosos foram presos, empresários que não passavam de seriais killers das verbas públicas foram para a cadeia, e recursos foram recuperados.
Essa ação inédita, heróica, corajosa, essa luta brutal foi escrita pelo juiz Sérgio Moro e por um grupo de procuradores, do MP, liderados por Deltan Dallagnol.
Agora, o consórcio criminal construiu um “acórdão que reúne forças diversas, e tem em Aras, atual Procurador Geral, um de seus braços, acaba de derrotar o juiz, o procurador, que sonharam juntos conosco o sonho de um Brasil sem corrupção.
E nós, brasileiros, passivos, calados, sem entendermos a grandiosidade do acontecido nos deixamos levar pelas narrativas construídas com suposições inconsistentes, elaboradas e divulgadas por seus inimigos, e nos tornamos cúmplices dessa derrota.
Nós somos os seus carrascos, nós somos os nossos carrascos.