A oposição ao secular hegemonismo de Ronaldo tem um alvo, antes de pensar em ganhar a disputa: levar a eleição ao segundo turno, algo que não vemos desde que ele chegou ao poder e mesmo no auge da popularidade do PT, no Brasil, com Lula.
Embora sempre se fale da longevidade e do desgaste do poder, isso parece mais conversa de parcela da classe média cansada da monotonia administrativa desses anos, do que das classes populares onde Ronaldo tem capilaridade, e um nome sedimentado. Eleição após eleição, Ronaldo emplacou votação crescente e levou no primeiro turno, embora tenha sido sempre o candidato, exceto com Tarcisio Pimenta, que ele pediu a Feira que elegesse, como um presente para ele. Não se pode subestimar Ronaldo, mas evidente que fora do poder, com o grupo repartido, e um candidato, o fiel Colbert, que ele revelou apoio em uma live com excesso de mas e porém, haverá mais dificuldades.
Embora o principal opositor, o governo do Estado, e o PT, não tenham mudado o candidato, há variáveis que temperam a incerteza. A primeira é que Geilson e Targino, não marcham mais com o grupo de Ronaldo, assim como Roberto Tourinho, que tem Ângelo Almeida, como vice, e prometem uma dura crítica ao prefeito atual e ao ex. Todos tiveram boa votação na cidade, por méritos próprios.
A segunda, é que José Neto vem embalado em inédita popularidade nas pesquisas, com uma rejeição menor do que possuía no passado, vai fazer campanha apoiado nas obras de saúde do Estado e, talvez, faça uma parceria com um empresário como vice. Depende de se tornar mais agregador e capaz de partilhar o poder. Jonhatas Monteiro, ao que parece, será vereador e não mais candidato a prefeito. Há, ainda, Dayane Pimentel, Carlos Medeiros, e José de Arimatéia a definirem o tom.
A terceira fonte de incerteza é a pandemia que certamente vai influenciar no corpo a corpo, nas aglomerações, no comparecimento do eleitor, e certamente no seu desejo para o futuro. Sabe-se lá como estará o humor do eleitor, em Novembro.
Colbert, por sua vez, larga com o mandato, uma série de obras que tem colocado em andamento, o apoio do maior cabo eleitoral,e a tendência conservadora do eleitorado em momentos de pânico social.
No entanto, é por esta mudança de forças que a oposição conta com o segundo turno, que se torna uma terra sem regra.
Por enquanto, Colbert vai de obra, Ronaldo de lágrimas, Geilson e Tourinho de pancada, e Neto de boa colocação na largada.
Agnaldo, 87 anos, cardiologista, Salvador; Benício, 73, ortopedista, Feira de Santana; Josias Cavalcanti, 62, ginecologista, Recife; George, 55, cirurgião, Natal; Carlos Estorari, 48, clínico, Parauapebas; Francisco, 43, Samu, Montes Claros; Lucas, 32, neurocirurgião, Ivaiporã; Marco, 35, radiologista, Aracaju; Monique, 29 clínica, Cuiabá; Paloma, 27, clinica, Teófilo Otoni. Do velho mestre de nossa mais antiga faculdade de Medicina, à jovem recém-formada, eles compartilham um destino comum: eram médicos e foram vítimas da Covid-19. Escolheram salvar vidas e devotos dessa escolha não puderam se salvar.
Os nomes acima, e a localização, mostram que a doença não respeita geografia, sexo, especialidades, aparência de boa saúde, ou fragilidades, para exercer sua evolução dura, e imprevisível. De mínima letalidade, dirão os especialistas, e os desprovidos de empatia; de perda, dor lancinante, e luto incompleto, dirão os que perderam os tocados por ela.
As idades mostram que a doença tem uma agressividade única com os que a desafiam, e que expostos a uma maior carga viral dançamos com o perigo ao exercermos a medicina, porque nunca sabemos quando as fiandeiras do tempo decidem cortar o fio da vida e ética e humanamente não podemos negar socorro. São esses os nomes, escolhidos ao acaso, nos últimos dias, mas poderiam ser quase cento e cinquenta, outros, a maioria de jovens, em uma tragédia irreparável.
Salvo em guerra, nunca vimos tantos profissionais de uma área, morrerem em período tão curto, a maioria em direta e heroica atividade de enfrentamento à pandemia, e a esse “anunciador de caos”, invisível e concreto, capaz de mudar o urbano, a geopolítica, a economia, a proximidade do humano, os costumes, os abraços e o luto, como um feitor do universo.
É preciso que as pessoas se conscientizem da brutal tensão e risco que vivem todos que estão dentro de um ambiente hospitalar, fazendo renúncias, escolhendo a solidão do afastamento familiar, cultivando o temor das despedidas, presenciando diariamente a frustração da perda, a impotência da cura, girando a roleta-russa da contaminação. E os que sobrevivem, não saem ilesos e sem cicatrizes na memória do estresse continuado.
Não podemos ser uma sociedade egoísta, que não reflete sobre a conseqüência da renúncia à ciência, e o desrespeito as recomendações de saúde, por vaidade ou um hedonismo desnecessário, lesivo, e vazio.
Nossos atos têm custos a terceiros, e a vida do profissional de saúde não é um bem reciclável, ou descartável, pois, quando se perde alguém a saudade se torna um asilo, e a lembrança até é um fiapo de consolo, mas a tristeza é um vazio incompleto e sem escuta. Como sabe o silêncio de Benícios, Moniques, e Palomas.
Pesquisa Datafolha mostra que Bolsonaro chegou a 37% de ótimo e bom, com crescimento de 5%, e teve queda na rejeição de 44% para 34%. Há algumas razões para isso:
1- R$254 milhões distribuídos a 64 milhões de pessoas, como fator principal, devorando, inclusive, parte do eleitorado Lulista. Não é a toa que entre os que estão sem ocupação a reprovação caiu 9% e o apoio subiu 12%
2-a prisão de Queiroz- o assessor do Senador " Rachadinha"-, Flávio Bolsonaro, que calou o presidente e reduziu os arroubos extremistas, e as agressões verbais cotidianas, e o inquérito do STF que botou cabresto no "gabinete do ódio" e fez Bolsonaro dar um cavalo de pau em suas posições, aproximando-se do Congresso abraçando o Centrão, sacrificando Moro e a pauta anti-corrupção, distanciando-se cada vez mais da pauta liberal da campanha. A redução da verborragia do confronto parou de incomodar aquela parte do eleitorado que o apoiou na campanha, mas que não gostava dos excessos que ele cometia.
3- a " normalização da pandemia" que já está incorporada pela sociedade a sua rotina e que não enxerga mais como responsabilidade do presidente o enfrentamento a doença.
4- a esquerda, dilacerada pela corrupção ilimitada, não consegue apresentar um discurso que ganhe a confiança da sociedade ou reduza a rejieção entre os não militantes.
O pragmatismo de Bolsonaro- não sem razão aconselhado por Temer-, mira a reeleição, e o aditivo financeiro do coronavoucher incendeia o eleitorado desamparado, sustenta a economia, e se torna um cabo eleitoral dificil de ser batido
A grande dúvida é se esse comportamento do presidente e a economia terão sustentação até a eleição.
Todo fenômeno, ou tragédia duradoura, conduz o humano a uma adaptação à situação, para que a normalidade da alma humana sobreviva. A imperiosa e irresistível necessidade da vida normal nos conduz a isso por caminhos diversos, sendo que dois desses mecanismos são a " normalização" do fato e a indiferença.
Estamos vendo isso com a Covid-19. A longa, persistente, repetição dos números de casos e mortos vai retirando das pessoas, o choque, o espanto, o medo, fazendo com que elas passem a tornar aquilo um ambiente em que a vida normal segue adiante, apesar de sua existência. Como o sol para os que habitam o deserto, ou o gelo, para os que habitam os polos. É a " normalização" do anormal.
Por outro lado, se os número iniciais nos espantavam e nos levavam a vigiar diariamente seu crescimento, a partir de determinado ponto, determinada grandeza, ele perde seu poder de impacto. Os 100 mil mortos, uma marca simbólica, ao ser ultrapassada produziu esse efeito. Já há muita gente que não vigia mais os números, que está ficando indiferente a seu crescimento. Não é mais a Covid-19, suas mortes sem luto, sua rotineira repetição, que domina a sociedade, nesse momento, mas as estratégias de retomada da vida normal, como se normal ela fosse. Isso traz o risco de redução do cuidado, queda da vigilância , cobrança aos governos.
É preciso flexibilizar, mas não normalizarmos o avesso para que mantenhamos os cuidados, pois, como diz Guimarães Rosa, a vida é perigosa é na travessia.
Evidente que a memória da população é curta e a vida, imperiosa, clama para seguir adiante, mas não deixa de haver um certo cansaço, dor, sofrimento, na alma das pessoas, por isso, essa será uma campanha para quem vende alegria, esperança, recuperação, não para quem vende desilusão, destruição, ressentimento e violência.