Só para lembrar
"Parabéns à Lava Jato. O recado que eu estou dando a vocês é a própria presença do Sergio Moro no Ministério da Justiça, inclusive Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras], para combater a corrupção. Ele pegou o Ministério da Justiça, é integralmente dele o ministério, sequer influência minha existe em qualquer cargo lá daquele ministério. E o compromisso que eu tive com ele é carta branca para o combate à corrupção e ao crime organizado",
Bolsonaro em 2018.
"Eu não assumiria um papel de ministro da Justiça com o risco de comprometer a minha biografia, o meu histórico." ..
Moro, 2018
Confirmado que Bolsonaro demitiu o diretor geral da Polícia Federal, sem o aval de Moro, não restará alternativas ao ex-juiz a não ser deixar o governo. Bolsonaro quer escolher um diretor que coloque a PF sob seu controle- uma tola ilusão-, e isso representará o pico máximo da curva de humilhação a que tem submetido o Ministro da Justiça. Caso Moro fique, e aceite o sucessor indicado por Bolsonaro cometerá suídicio político; e mesmo que indique o sucessor, ficará claro que não terá condições plenas de executar seu trabalho.
Bolsonaro, para salvar os filhos, estará fazendo um movimento de xadrez de resultados imprevisiveis, pois, sem dúivida que perderá grande parte do apoio que tem na Sociedade.
Moro falará as 11h. A sorte está lançada.
Bolsonaro acenar aos que pedem intervenção militar é tão inadmissível quanto Maia discutir parlamentarismo com a Espanha!
O gesto obrigou as Forças Armadas a publicarem uma constrangedora nota em que reafirmaram sua opção democrática. O próprio Bolsonaro,no dia seguinte, como é costume, voltou atrás e disse que tem compromisso com a liberdade e quer o STF aberto.
Bolsonaro usa sempre esse mesmo tipo de comportamento. Estica a corda e depois volta atrás, mas sem deixar de estimular seus apoiadores extremistas, criando sempre uma sinalização dúbia de que apoia o pior. O Congresso, por sua vez, aprova pautas bombas e tenta exerceer um parlamentarismo branco.
O clima de confronto institucional, slogans anti-intituições, pedidos de fechamento do Congresso, e de ordem, além de abraços na bandeira do Brasil, já foi vivido no país. E deu no que deu.
Convém não alimentar, excessivamente, os dragões.
Leio as notícias e vejo que os serviços de saúde de alguns Estados se aproximam do colapso, mas é tanta notícia que já não sei o que é verdade o que é pandemia. Dizem que o pico da doença ainda virá, e parece que virá mesmo, ao menos nas cidades maiores. Imagino a fila de espera de nosso limitado sistema de saúde, em um país que prefere estádios quase inúteis a hospitais, afinal, eles não servem para disputar Copas e como isso pode se tornar explosivo. E a fome já espreita na cidade quase vazia e lacrada.
Tento de alguma maneira não pensar nas cenas difíceis das despedidas sem liturgias e do anonimato da morte. A história humana, no entanto, sempre foi tocada ao ritmo de grandes perdas embora achássemos que os tempos modernos, em que sondas espaciais já pousam em cometas, nos tivessem garantido proteção contra isso.
É sábado, e passo o dia no plantão da dialise. São pacientes de alto risco. Sinto a densidade que existe na espera, como se o ar pudesse ser cortado com o bisturi. Os chavões, às vezes, dizem coisas reais. Estamos todos diferentes na sala, com certo cerimonialismo, mascarados, evitando quebrar as barreiras, falar próximos, circular com objetos, e tensos com qualquer queixa de gripe. Lemos cada paper publicado com a esperança de um remédio que nos dê a liberdade do confinamento, mas que não se concretiza, embora saibamos cada vez mais dos poderosos estragos do vírus nos casos graves.
Celebramos as altas, nos hospitais, como afirmação a nós mesmos que é possível vencer. Faço exercício por uma hora quando chego em casa como um recado aos pulmões que, se preciso, eles têm o dever de aguentar e agradeço não ter sido fumante por mais de quinze dias. Em um dia longo, sinto falta dos filhos, impedidos de voltarem para casa , mas confio, apesar de que toda certeza que temos não passa de uma cordilheira de isopor.
No intervalo, vou tomar um café-antiviral efetivo-, e ouço, da entrada da Copa, dona Geisa, funcionária, cantando: porque ele vive, posso crer no amanhã/ porque ele vive, temor não há, não há, não há.
Demoro ali, até ela acabar. Desafinado, cantava isso para meus filhos dormirem e o canto me volta como um aditivo, um galope para o horizonte. Penso que temos ciência, água, sabão, e solidariedade, para vencermos. Vamos ficar bem.
Eu bem sei, temor não há, não há, não há, não há...
Brasileiro se aglomera em tiroteio policial, acidente de trânsito, briga de casal, roubo de carga, caruru com sete quiabos, lavagem de quintal, não vai se aglomerar pra receber R$600, de graça?
Melhor procurar outro planeta!