É precoce e limitado o entusiasmo dos que falam do declínio do
Império Americano. O de Roma, é bom lembrar, levou 300 anos antes de cair. Os EUA
atingiram o maior orçamento militar da história atingindo US$ 895 bilhões de dólares.
O segundo colocado investiu US$ 200 e os demais vinte países a seguir, reunidos,
ainda não alcançam a formidável máquina de guerra americana. Além disso, tem a
economia emparelhada com a China ( basta lembrar que a Califórnia tem o quarto
maior PIB do mundo) e um domínio tecnológico ainda não alcançado como podemos
ver pelas empresas de tecnologia principais. Isto, sem contar os países que
estão associados a sua rede.
É certo, no entanto, que ao final da Segunda Guerra o país
tinha 50% da produção industrial do mundo e hoje tem algo ao redor de 30%. Não
podemos negar, apesar disso, que o mundo cresce em direção a Ásia que, cada vez
mais, a China será um concorrente poderoso se mantiver o projeto de crescimento
que tem seguido. O soft power que foi doutrina do governo americano foi substituído
pela força e imposição pelo governo Trump que enxerga em todas as relações
comerciais alguém de quem se pode obter mais, criando desconfianças nos
parceiros, instabilidade, e, inclusive, resistências
importantes. A China, por sua vez, de forma obstinada e planejada vai estendendo
sua rede de influência pelo mundo, com infiltração econômica e política, recriando,
uma nova “rota da seda”. O gigantesco
porto de Chancay que construiu e inaugurou no Peru é a prova disso.
Trump, por sua vez, ao afirmar que pode invadir Groelandia e
Canal do Panamá, sinaliza que se a China invadir Taiwan – produtor de chips- ele
poderá fazer o mesmo. Trump resolveu
escancarar essa realidade de mudança no mundo, chacoalhar a Europa para se tornar
mais ativa em sua defesa, e aumentar a lucratividade dos Estados Unidos em suas
relações comerciais.
É um jogo de hegemonia, poder, influência, que está sendo
jogado. Teremos de escolher um lado e torcer para que o mundo não passe da
linha de não retorno, afinal, até alguém alcançar o poderio militar americano
ainda teremos uma longa estrada.
No momento em que o Brasil vive sua mais grave crise, com consequências e desfecho imprevísiveis, o presidente da Cãmara- Hugo Motta- e do Senado - Alcolumbre- decidem manter o Congresso em recesso. Exatamente no momento em que mais precisamos da ação política, da conversa, do debate, da ação daqueles que foram eleitos para tentar encontrar um caminho e solução que evite o início do tarifaço, o Congresso, se omite. É de uma covardia, falta de responsabilidade, falta de compromisso, inacreditáveis.
Grande parte dessa crise se dá pela recusa do Congresso em legislar e limitar as ações do Supremo. Agora, no momento mais preciso, ele opta pela inutilidade.
Nenhum país do mundo recebeu uma tarifa tão pesada como o
Brasil, nem tampouco teve ministros da Suprema Corte punidos com suspensão do
visto de entrada nos EUA. É lógico, portanto, que a ação vai além da mera
diferença da balança comercial – positiva aos EUA, diga-se de passagem- e tem
um componente político que inclui Bolsonaro e Lula.
Não há dúvidas que Bolsonaro estimulou e tentou de todas as
maneiras criar condições para um golpe militar, contido pela não adesão das
Forças Armadas- e não há golpe sem armas. A desordem em Brasília não foi o
bastante para vencer a resistência existente. Não se pode negar que a família
Bolsonaro e outros jornalistas Bolsonaristas buscam nos EUA uma intervenção
contra o julgamento do ex-presidente e sua inevitável prisão.
Há, entretanto condições que favoreceram a intervenção de
Trump. Uma delas é a prática de censura, atuação contra empresas americanas, do
STF, além da completa destruição do devido processo legal que é promovida por
Alexandre de Moraes. Diversos juristas já mostraram em exaustivas discussões
todas as violações que ele promoveu no seu “ inquérito do fim do mundo”. Claro
que essas violações e o peso excessivo das penas aplicadas no processo servem
para Bolsonaro criar a narrativa de perseguição. Do mesmo modo que as últimas
ordens de Moraes contra Bolsonaro se deu após as medidas de Trump, o que é um
erro de oportunidade. As medidas contra Bolsonaro- a maioria prevista em lei-
não pode se dar porque Trump fe ou não fez algo e sim pela necessidade do
processo.
Por outro lado, é preciso que a parte da responsabilidade de
Lula seja colocado de forma explicita, afinal, ele tem um permanente discurso
antiamericano, é aliado da Rússia e da China e defendeu o Irã- país que financia
grupos terroristas- dos ataques americanos. Além disso chamou Trump de nazista
e propôs um golpe fatal nos EUA- a mudança do dólar como moeda de referência.
Ora, Trump não pode tolerar isso jamais.
A reação era inevitável e foi grave, pois há impactos
econômicos importantes. Nenhum país dos Brics tem um discurso tão agressivo
contra os EUA como o Brasil. A escolha de Lula de cutucar o leão com a vara
curta foi deliberada. O problema é que a conta será paga pelo brasileiro comum.
Especialistas estimam que o Brasil pode perder algo ao redor de R$20 bilhões de reais e 110.000 mil empregos com as tarifas de Trumo. É claro que se você reduz seu mercado exportador acontece uma redução do comércio e perda de empregos. Parte, mas não todo, pode ser compensado com exportações para outros países, mas essas demandas já estão estabelecidas. Nos EUA alguns produtos também irão encarecer, mas eles tem lastro financeiro para aguentar. Hoje a Bolsa de Valores teve queda de 3,61%, a pior semana desde que Lula assumiu.
Além das repercussões econômicas existem as imprevisíveis repercussões políticas. Muitos dizem que essa ação irá prejudircar Bolsonaro e Tarcísio o que pode ser verdade inicialmente, mas não apenas eles se a economia piorar. A população tem um humor muito sensível aos preços. Outros acham que Lula ganhou um presente, um inimigo externo, para desviar atenção do governo ineficaz e vivendo uma crise fiscal.
A seguir o modelo Trump em algum momento deverá haver uma negociação, redução das tarifas e manutenção do comércio. Trump terá chamado atenção para o Brasil. O impacto que haverá para Bolsonaro e para Lula só o tempo dirá
Um evento como a taxação de 50% imposta por Trump- um
populista inescrupuloso com instinto totalitarista- ao Brasil não acontece por
uma única razão e sim por combinação de fatores. Atribuir essa ação
exclusivamente à defesa de Bolsonaro é superestimar o poder do
ex-presidente, que não chega a essa dimensão nem entre os bolsonaristas mais
ferrenhos, mas foi uma ótima cortina de fumaça. Trump não faz isso por ninguém.
O que aconteceu é que Lula vem de forma reiterada exercendo
um antiamericanismo juvenil. Ele chamou Trump de nazista, apoiou o Hamas, condenou
Israel, defendeu o Irã condenando os EUA pelos ataques, recebeu navios de
guerra do Irã no Rio de Janeiro. Além disso, é francamente a favor de Putin,
condenado como criminoso de guerra – inclusive equiparando a Ucrânia ao
invasor- sendo o único líder ocidental
presente as comemorações da Segunda Guerra em Moscou, onde fez figuração ao
lado de vários ditadores.
Ao lado disso, defende Cristina Kirchner, na Argentina,
ofendendo a Justiça Argentina; apoia Maduro na Venezuela, e mandou avião da FAB
buscar a ex-primeira dama do Peru
condenada por corrupção. Ou seja, Lula deixa explícito suas escolhas e seu
perfil, sempre contrariando os interesses americanos.
Evidente que as decisões
do STF- fora de controle e eivado de arbitrariedades- com punições de empresas americanas, assim como
ataques a Musk, inclusive por Janja, fizeram composição do caldo da reação. O discurso
Bolsonarista com sua extrema direita
capacha de Tio Sam, serviram para
calibrar o exagero das tarifas.
O ponto crítico, no entanto, que irritou Trump foi o discurso de Lula no
BRICS propondo a criação de uma moeda alternativa ao dólar. Ou seja: uma facada
direta no poder americano. O ministro das Relações Exteriores da Rússia já afirmou publicamente que a ideia da moeda foi
de Lula.
Bolsonaro serviu como bode expiatório conveniente para Trump
reagir ao que acha um desafio ao seu poder pelo presidente brasileiro que vive
de fazer o jogo de boneco de ventríloquo de Rússia e China.
Enfim, as ações do STF de censura, violações do devido
processo legal, ataques a empresas americanas, associado às posições políticas
de Lula, causaram o furor de Trump. O bolsonarismo lhe deu o cavalo para montar
e não dizer que ataca uma Suprema Corte ou um presidente legalmente eleito.