Como um soldado que, muito depois da batalha, ainda distingue,
ao longe, o eco de uma explosão, dou-me conta, com sobressalto, de que, hoje, é
o último dia de junho. Enquanto a cidade viveu suas noites iluminadas por
fogueiras e bandeirolas, passei o mês inteiro encerrado entre os arquivos do
professor José Jerônimo, personagem de uma pesquisa biográfica que venho
escrevendo. Durante semanas, minha existência se resumiu a cartas amareladas,
fotografias sem legenda, manuscritos quase ilegíveis e jornais esquecidos pelo
tempo. Habitei mais o passado do que o presente. Agora, ao caminhar
solitariamente pelos subúrbios da cidade, encontro apenas restos de fogueiras
apagadas, mastros abandonados e o cheiro persistente da fumaça. Esses vestígios
não me recordam o que vivi, mas precisamente aquilo que deixei de viver.
Há uma estranha solidão em quem passa dias escavando uma vida
alheia. Aos poucos, as fronteiras entre pesquisador e personagem começam a se
desfazer. As horas deixam de obedecer ao relógio e passam a ser medidas pelos
documentos encontrados. Uma carta conduz a outra; uma fotografia abre caminho
para uma lembrança; um nome perdido numa margem de papel obriga a percorrer
novas trilhas. É um trabalho silencioso, quase monástico. Enquanto o mundo
celebra, o biógrafo desce às catacumbas da memória.
Talvez por isso junho sempre me pareça um mês envolto por uma
névoa particular. Não é exatamente tristeza. É uma sensação difícil de nomear,
como o anúncio de um ataque que jamais acontece, mas cuja ameaça permanece
suspensa no ar. Desde menino, o fim de junho me provoca esse desconforto. As
festas terminam antes que possamos compreendê-las. As fogueiras viram cinzas.
As bandeirinhas, que há poucos dias tremulavam orgulhosas sobre as ruas,
começam a desbotar sob o vento. Existe uma melancolia própria das coisas
festivas quando deixam de cumprir sua função.
Sempre achei curioso que as maiores alegrias populares sejam
construídas sobre materiais destinados ao desaparecimento. A fogueira nasce
para virar cinza. Os fogos de artifício existem apenas enquanto explodem. A
música termina. O arraial é desmontado. Talvez a beleza das festas resida
justamente nisso: elas nos lembram que toda alegria é provisória.
Enquanto caminhava nesta tarde, pensei que os subúrbios
guardam melhor a memória das festas do que os centros das cidades. No centro,
tudo é rapidamente substituído por outra urgência. Nos bairros periféricos,
porém, permanecem os sinais discretos do que passou: um balão de papel preso
aos fios elétricos, uma bandeirinha esquecida num telhado, uma fogueira
reduzida a um círculo escuro no chão. São pequenas ruínas do cotidiano. Gosto
dessas sobrevivências. Elas me fazem pensar que o tempo nunca consegue apagar
completamente aquilo que toca.
Talvez seja por isso que gosto tanto dos arquivos. Também eles
são uma coleção de ruínas. Um arquivo não preserva a vida; preserva apenas
aquilo que resistiu à sua destruição. Toda biografia é construída menos pelo
que encontramos do que pelo que desapareceu para sempre. Entre uma carta
preservada e outra perdida existe um silêncio impossível de reconstruir. O
historiador aprende cedo que a memória humana é feita tanto de presenças quanto
de ausências.
Dias atrás encontrei, numa epígrafe de um poema de Roberval
Pereyr, uma frase que desde então não me abandona: "Não há manhãs de
sol no país dos mortos." Li essas palavras uma única vez, mas elas
continuaram caminhando ao meu lado enquanto eu remexia caixas de documentos e
respirava o pó acumulado de décadas.
Desde então, fiquei imaginando aquele país silencioso. Se ali
não existem manhãs, talvez também não existam segundas-feiras, aniversários,
festas juninas ou calendários. Talvez os mortos permaneçam para sempre
suspensos na quietude de um domingo interminável.
É uma hipótese melancólica, reconheço. Mas enquanto volto
para casa entre fogueiras reduzidas a cinzas e percebo que junho terminou sem
que eu realmente o tivesse vivido, descubro que algumas perguntas chegam tarde
demais para serem respondidas.
Uma delas continua comigo.
Como serão, afinal, os domingos da morte?
Em 1991, quando a União Soviética desapareceu do mapa,
difundiu-se no Ocidente uma convicção que hoje parece quase ingênua: a de que
as grandes guerras entre Estados haviam se tornado um fenômeno do passado. A
democracia liberal triunfara, a economia global integrava antigos adversários e
a interdependência comercial parecia tornar irracional qualquer confronto de
grandes proporções. A paz deixava de ser um intervalo entre guerras para se
transformar, acreditava-se, na condição normal da História.
Essa ilusão recebeu até um nome: o "dividendo da
paz". Se o inimigo desaparecera, fazia sentido reduzir efetivos militares,
fechar bases, desativar arsenais e transferir recursos para saúde, educação e
infraestrutura. Durante décadas, grande parte da Europa seguiu esse caminho.
Exércitos foram encolhidos, programas de armamentos cancelados e a própria
ideia de uma guerra continental passou a ser vista como uma relíquia do século
XX.
A História, porém, costuma tratar com severidade aqueles que
decretam o seu fim. O anúncio do maior investimento britânico em defesa desde a
Guerra Fria não representa apenas uma decisão orçamentária. É um sintoma de
algo muito mais profundo: o retorno da política de poder como princípio
organizador das relações internacionais.
Durante boa parte das últimas três décadas, acreditou-se que
a segurança europeia estava garantida por uma arquitetura internacional
estável, sustentada pela expansão da Otan, pela integração econômica e,
sobretudo, pela garantia estratégica oferecida pelos Estados Unidos. A guerra
permanecia possível, mas parecia confinada às periferias do sistema
internacional – os Bálcãs, ao Oriente Médio, à África. O coração da Europa
julgava-se definitivamente protegido da violência em larga escala.
A invasão russa da Ucrânia, em 2022, destruiu essa certeza. Não apenas porque uma guerra convencional voltou ao continente, mas porque revelou algo ainda mais perturbador: a competição entre grandes potências jamais havia desaparecido. Apenas atravessara um período de menor intensidade. A lógica do equilíbrio de poder, das zonas de influência, da corrida tecnológica e da dissuasão militar permaneceu viva, aguardando circunstâncias favoráveis para retornar ao primeiro plano. Nesse sentido, talvez o maior erro estratégico do Ocidente tenha sido confundir ausência de guerra com desaparecimento da possibilidade da guerra.
A História Militar ensina exatamente o contrário. Os longos
períodos de paz raramente eliminam as rivalidades; apenas modificam suas formas
de manifestação. A paz de hoje pode esconder as tensões que produzirão os
conflitos de amanhã. Foi assim na chamada Belle Époque, às vésperas de
1914. Foi assim nos anos que antecederam 1939. E talvez estejamos assistindo a
um fenômeno semelhante no século XXI.
Não surpreende, portanto, que o Reino Unido volte a investir
pesadamente em defesa, que a Alemanha abandone décadas de contenção militar,
que a Polônia acelere um dos maiores programas de rearmamento da Europa e que
praticamente todos os membros da OTAN revisem suas prioridades estratégicas.
Não se trata apenas de adquirir mais tanques, aviões ou navios. Trata-se de
reconhecer que a segurança voltou a ocupar o centro das decisões nacionais.
Há uma ironia histórica nesse movimento. Durante décadas,
muitos acreditaram que o desenvolvimento econômico substituiria definitivamente
a competição geopolítica. A prosperidade seria o antídoto contra a guerra.
Hoje, entretanto, são justamente economias altamente desenvolvidas que voltam a
direcionar centenas de bilhões para arsenais, inteligência artificial, drones,
defesa cibernética e indústria militar.
Isso não significa que uma nova guerra mundial seja
inevitável. A História não trabalha com fatalismos. Mas significa que os Estados
voltaram a agir como sempre agiram quando percebem a deterioração do ambiente
estratégico: preparando-se para um conflito que esperam nunca travar.
A Guerra Fria terminou. Mas a necessidade de preparar-se para
a guerra jamais desapareceu. Apenas ficou temporariamente adormecida, enquanto
muitos confundiam uma pausa da História com o seu encerramento definitivo.
Hoje, os arsenais voltam a crescer porque os governos compreenderam uma verdade
tão antiga quanto a própria civilização: a paz não elimina a política de poder;
apenas torna menos visíveis as forças que continuam a movê-la.
Durante séculos, havia um ritual para a guerra. Antes que os
exércitos marchassem, os governos anunciavam ao mundo que a paz havia
terminado. A declaração de guerra não era um mero formalismo diplomático. Ela
marcava uma ruptura jurídica, política e até moral. Dizia aos cidadãos, aos
aliados e aos inimigos que um novo estado de coisas havia começado. A guerra
tinha um início reconhecível.
Hoje, esse momento quase desapareceu. A notícia que li, hoje
pela manhã, sobre ataques aéreos do Paquistão contra alvos no Afeganistão ilustra
uma transformação silenciosa, mas profunda, da própria natureza dos conflitos
contemporâneos. Islamabad afirma ter atingido combatentes do Tehreek-e-Taliban
Pakistan (TTP); Cabul denuncia a morte de dezenas de civis. Há bombardeios,
incursões terrestres, mortos, feridos, deslocados e sucessivas retaliações.
Ainda assim, nenhum dos dois países declarou guerra ao outro.
A pergunta torna-se inevitável: se há operações militares
regulares, destruição de infraestrutura, incursões transfronteiriças e centenas
de vítimas, o que falta para chamarmos isso de guerra? A resposta é
desconfortável. Talvez, não falte absolutamente nada.
Nossa compreensão da guerra permanece, em larga medida,
prisioneira de uma herança europeia dos séculos XVIII e XIX, quando os Estados
procuravam enquadrar a violência dentro de normas relativamente precisas.
Declarava-se guerra, mobilizavam-se os exércitos nacionais, estabeleciam-se
objetivos políticos e, ao final, assinava-se um tratado de paz. A guerra
possuía um enquadramento jurídico relativamente claro, ainda que sua realidade
fosse brutal.
O século XXI dissolveu essa moldura. Os conflitos já não
começam em um dia específico. Eles se acumulam lentamente. Primeiro surgem
sanções, depois ataques cibernéticos, operações de inteligência, assassinatos
seletivos, bombardeios "cirúrgicos", ações de forças especiais e
incursões limitadas. Cada episódio é apresentado como uma exceção, uma resposta
proporcional, uma medida preventiva ou uma operação antiterrorista. Nenhum
deles, isoladamente, justificaria a palavra "guerra". Mas todos,
somados, produzem exatamente aquilo que outrora chamávamos de guerra. Na
prática, os soldados pouco se importam com a terminologia empregada pelos
diplomatas. Quem vive sob bombardeios não distingue entre uma "operação de
segurança" e uma guerra. Para quem enterra os mortos, a semântica oferece
escasso consolo.
Essa transformação não é acidental. Após 1945, a criação das
Nações Unidas tornou a guerra um instrumento juridicamente problemático. A
Carta da ONU proibiu, em princípio, o uso da força contra outro Estado, salvo
em hipóteses muito específicas, como a legítima defesa ou a autorização do
Conselho de Segurança. Declarar guerra passou a significar admitir publicamente
uma conduta que o próprio direito internacional passou a restringir.
Os Estados adaptaram-se rapidamente. Em vez de guerras,
passaram a conduzir "operações especiais", "ações de
contraterrorismo", "intervenções limitadas", "missões de
estabilização", "ataques preventivos". A linguagem mudou muito
mais depressa do que a violência.
A História oferece uma curiosa ironia. Jamais existiram
tantos mecanismos jurídicos destinados a preservar a paz, e, ao mesmo tempo,
jamais foi tão comum a existência de conflitos armados que evitam assumir
oficialmente esse nome.
Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma nova
categoria histórica: a guerra permanente sem declaração. Não se trata apenas do
caso envolvendo Paquistão e Afeganistão. A mesma lógica aparece nas sucessivas
operações de Israel contra grupos armados em países vizinhos, nas incursões
turcas contra posições do PKK no norte do Iraque e da Síria, nos ataques
norte-americanos contra organizações jihadistas em diferentes continentes e em
inúmeras ações transfronteiriças justificadas como autodefesa.
Talvez um historiador do futuro estranhe nossa insistência em
perguntar quando determinada guerra começou. Para ele, essa pergunta poderá
soar tão anacrônica quanto perguntar em que dia exatamente começou a Revolução
Industrial. Alguns processos históricos não possuem um instante inaugural
claramente identificável; apenas percebemos, retrospectivamente, que
atravessamos um limiar.
É possível que estejamos vivendo precisamente um desses
momentos. A guerra continua presente, continua produzindo cadáveres, deslocando
populações e redefinindo fronteiras. Apenas perdeu a cerimônia de anunciar sua
chegada.
E talvez essa seja sua transformação mais inquietante: hoje,
muitas vezes, só descobrimos que uma guerra começou quando já estamos contando
os mortos.
Há personagens que sonham. Há personagens que enlouquecem. E há aqueles que vivem convencidos de que o mundo lhes deve alguma coisa. Foi relendo Os Sete Loucos, romance do argentino Roberto Arlt, que me dei conta de um traço decisivo do personagem central, Erdosain. À primeira vista, ele parece um descendente moderno de Dom Quixote. Ambos deformam a realidade; ambos enxergam possibilidades invisíveis aos demais; ambos vivem sob o domínio da imaginação. Mas essa semelhança é apenas superficial. Quixote enlouquece por excesso de livros. Erdosain enlouquece por excesso de melancolia. A diferença é enorme.
Dom Quixote abandona a realidade porque foi capturado pelo universo cavaleiresco. Os romances absorveram sua percepção do mundo como um buraco negro absorve a luz. Sua fantasia nasce de um ideal. Mesmo quando agride alguém, acredita estar fazendo justiça. Sua bondade permanece intacta. A loucura não destrói seu núcleo moral.
Em Erdosain ocorre o inverso. Sua imaginação não nasce dos livros, mas da frustração. Há nele uma reserva inesgotável de melancolia que o impede de habitar o mundo tal como ele é. Por isso, vaga pelas ruas de Buenos Aires esperando que algo extraordinário aconteça. E esse detalhe é extraordinário. Erdosain não apenas fantasia. Ele espera ser escolhido.
Em determinados momentos do romance, imagina que um "milionário melancólico" o observa por trás das persianas de um edifício e, reconhecendo sua grandeza secreta, o chamará. Em outros, fantasia com uma jovem virgem e milionária que o distinguirá da multidão. Não se trata propriamente de riqueza. Trata-se de reconhecimento. Ele acredita que existe, escondida sob sua existência miserável, uma grandeza que ninguém percebeu.
E espera que a realidade finalmente lhe faça justiça. Foi então que me ocorreu uma hipótese. Talvez Erdosain seja um homem dominado por uma espécie de débito metafísico. Ele vive como se o universo estivesse em falta com ele. O mundo lhe deve reconhecimento. Lhe deve amor. Lhe deve grandeza. Lhe deve destino. Como essa dívida jamais é quitada, sua melancolia transforma-se lentamente em ressentimento.
Essa ideia me fez lembrar imediatamente um dos personagens mais perturbadores da literatura brasileira: o protagonista de O Cobrador, de Rubem Fonseca. Ali, aquilo que em Erdosain permanece difuso torna-se declaração explícita. "O mundo me deve." O personagem enumera tudo o que acredita lhe ter sido roubado: tratamento dentário, dinheiro, conforto, sexo. Não fala como quem deseja. Fala como um credor.
A diferença entre os dois personagens talvez esteja apenas no estágio da doença. Erdosain ainda espera que alguém pague a dívida (um milionário melancólico, como ele mesmo diz). O Cobrador conclui que ninguém pagará. Então decide cobrar. Sua violência nasce exatamente dessa convicção de que existe um crédito moral não quitado.
Talvez seja essa a verdadeira genealogia do ressentimento moderno. Não o homem pobre. Nem o homem injustiçado. Mas o homem convencido de que foi espoliado de um destino que lhe pertencia. A partir daí, tudo muda. A violência deixa de ser percebida como crime. Passa a ser vista, pelo próprio personagem, como restituição.
Há um momento decisivo no conto de Rubem Fonseca. Depois de uma sequência de assassinatos, o protagonista encontra uma mulher que lhe diz que ele mata "de uma forma quase mística". A frase é perturbadora porque converte a violência em missão. Já não se trata apenas de matar. Trata-se de cumprir um destino.
É exatamente aí que Erdosain começa a se aproximar do universo do Astrólogo, em Arlt. O sofrimento privado encontra uma narrativa capaz de lhe conferir sentido. A melancolia deixa de ser apenas dor; transforma-se em projeto.
Quixote, Erdosain e o Cobrador recusam o mundo existente. Mas cada um o faz por razões completamente diferentes. Quixote acredita que o mundo perdeu sua nobreza. Erdosain acredita que o mundo lhe sonegou sua grandeza. O Cobrador acredita que chegou a hora da cobrança.
Talvez essa seja uma hipótese perturbadora: A mais perigosa das fantasias não consiste em imaginar gigantes onde existem moinhos. Consiste em acreditar que a própria existência possui um crédito infinito contra o mundo.
Quando essa convicção se instala, a realidade deixa de ser um lugar para viver e passa a ser um imenso livro-caixa onde tudo é contabilizado: humilhações, fracassos, desejos frustrados. E, nesse momento, o homem deixa de ser apenas um sonhador ou um melancólico. Torna-se um cobrador da própria existência. É nesse instante que a literatura deixa de falar apenas de personagens e começa a falar de uma possibilidade permanente da condição humana. Talvez seja por isso que Erdosain continue a nos inquietar tanto: porque sua espera delirante por um "milionário melancólico" não é apenas uma excentricidade. É a expressão extrema de uma pergunta silenciosa que, em algum momento, todos já dirigimos ao mundo: afinal, ele não me devia um pouco mais?
Nota: Citei ao longo do meu ensaio as seguintes obras: ARLT, Robert. Os Sete Loucos. São Paulo: Iluminuras, 2000; FONSECA, Rubem. Contos Reunidos. São Paulo: Cia das Letras, 2005.
Os generais explicam as batalhas. Os correspondentes explicam a guerra
Durante muito tempo, a História Militar foi escrita de cima
para baixo. Dos quartéis-generais para as trincheiras. Dos mapas para os
homens. Dos generais para os soldados. Aprendemos a acompanhar setas coloridas
indicando o avanço de divisões, o deslocamento de esquadras, a conquista de
cidades e o cerco de fortalezas. Conhecemos os nomes dos comandantes, os
calibres da artilharia, a composição dos exércitos e as decisões estratégicas
que mudaram o curso de campanhas inteiras. Tudo isso é indispensável. Mas não
basta.
Nenhum mapa registra o cheiro da pólvora. Nenhuma carta de
operações consegue reproduzir o silêncio que antecede um bombardeio. Nenhuma
ordem do dia traduz a angústia de um soldado esperando o amanhecer ou o alívio
absurdo provocado por uma piada contada dentro de uma trincheira. Há uma guerra
que escapa aos estados-maiores. É a guerra vista do chão. Foi essa guerra que
os grandes correspondentes legaram à História. E eu sempre fui fascinado por
correspondentes de guerra e seus relatos.
Enquanto os generais explicavam por que uma colina precisava
ser conquistada, eles mostravam quem morria tentando conquistá-la.
Talvez o primeiro grande nome dessa tradição tenha sido
William Howard Russell. Na Guerra da Crimeia, em meados do século XIX, Russell
desmontou a retórica heroica que cercava os exércitos britânicos. Suas
reportagens revelaram improvisação, incompetência logística, sofrimento e
abandono. Pela primeira vez, milhões de leitores descobriram que uma batalha
não era apenas um feito glorioso, mas também lama, doença e desorganização.
No século XX, essa tradição atingiu sua maturidade. Martha
Gellhorn desembarcou na Normandia escondida em um navio-hospital porque as
autoridades militares haviam proibido mulheres de acompanhar a invasão. Ela
desafiou a ordem não por vaidade, mas porque compreendia que a guerra precisava
ser vista de perto. Em vez de escrever sobre os movimentos das divisões
aliadas, descreveu o cheiro da grama entre explosões, o humor nervoso dos
soldados, o medo compartilhado e a estranha persistência da vida em meio ao
caos.
Seu contemporâneo Robert Capa levou essa mesma perspectiva
para a fotografia. Suas imagens são tecnicamente imperfeitas, muitas vezes
tremidas. Justamente por isso permanecem insuperáveis. Não retratam uma guerra
observada; retratam uma guerra vivida. Como dizia o próprio Capa, se a
fotografia não ficou boa, é porque o fotógrafo não estava suficientemente
perto.
Na Guerra do Vietnã, Michael Herr rompeu definitivamente com
a linguagem tradicional da reportagem militar. Em Dispatches,
especialmente nas páginas dedicadas ao cerco de Khe Sanh, a guerra deixa de ser
uma sucessão de operações e transforma-se numa experiência psicológica. O medo,
a confusão, a fadiga e o absurdo passam a ocupar o centro da narrativa. O
leitor compreende o conflito não porque decorou mapas, mas porque atravessou
emocionalmente aquele campo de batalha.
Poucos anos depois, Joseph L. Galloway acompanharia os
soldados americanos no vale de Ia Drang. Diferentemente do observador distante,
caminhou ao lado das tropas, compartilhou riscos e registrou o primeiro grande
choque entre forças norte-americanas e vietnamitas. Seu trabalho, mais tarde
transformado em livro, mostrou que compreender uma batalha exige estar onde as
balas caem, e não apenas onde as ordens são emitidas.
O mesmo pode ser dito de Robert Fisk. Durante décadas, das guerras
do Líbano aos conflitos do Oriente Médio, Fisk recusou o conforto das redações
e insistiu em permanecer entre ruínas, hospitais e populações civis. Sua grande
contribuição talvez tenha sido lembrar que toda guerra, por mais sofisticadas
que sejam suas armas, continua sendo vivida por pessoas comuns.
Há, portanto, duas histórias possíveis de cada conflito. A
primeira é escrita pelos estrategistas. Explica por que uma ofensiva foi
lançada, quais objetivos foram alcançados e como determinada campanha alterou o
equilíbrio político entre Estados. A segunda é escrita pelos correspondentes.
Ela registra o frio, a fome, a poeira, a espera, o medo, os pequenos gestos de
solidariedade e as breves explosões de humor que impedem o desespero
absoluto.Nenhuma substitui a outra. Mas apenas a segunda consegue responder à
pergunta mais importante de todas: Como era, afinal, estar lá?
Os generais nos ensinam como as guerras são vencidas. Os
correspondentes nos lembram por que elas jamais deveriam ser romantizadas. E
talvez seja justamente por isso que, décadas depois do silêncio dos canhões,
continuemos voltando às páginas desses homens e mulheres. Não para compreender
apenas a guerra, mas para compreender o ser humano quando todas as estruturas
da civilização parecem desabar.
*Nota: meu fascínio pelo estudo de História Militar remonta
aos meus tempos de adolescente. Logo cedo me familiarizei com relatos de
correspondentes de guerra. São muitos, mas talvez o de mais fácil leitura seja os “Despachos do Front”, do correspondente da revista Rolling Stone, Michael
Herr. Este livro serviu de inspiração para o filme "Apocalipse Now".