Donald Trump diz que não quer usar a
força, ele quer apenas a Groenlândia. A frase, dita em Davos com o desassombro
de quem pede um café, deveria ser lida com atenção histórica: poucas vezes, na
política internacional, a força foi tão claramente pressuposta justamente
quando se afirma que ela não será usada.
Enquanto o presidente americano
discursava sobre “um grande e belo pedaço de gelo”, os Estados Unidos
deslocavam porta-aviões, caças, reabastecedores e sistemas antimísseis para
cercar o Irã. De um lado, o Ártico apresentado como objeto de negociação civilizada;
de outro, o Oriente Médio tratado como teatro natural da guerra. A aparência de
dispersão estratégica esconde, na verdade, uma coerência brutal.
A Groenlândia não é um capricho
exótico e, sim, um território. E o
retorno explícito da centralidade do território é um dos sinais mais claros de
que a ordem liberal pós-1945 entrou em colapso. Durante décadas, acreditou-se,
ou fingiu-se acreditar, que mercados,
instituições multilaterais e normas jurídicas haviam domesticado a velha
política das grandes potências. Trump não compartilha dessa ilusão. Ao
reivindicar a Groenlândia, ele afirma algo que sempre foi verdade, mas
raramente dito de forma tão crua: espaço físico, rotas marítimas, controle
aéreo e posições geográficas continuam sendo a base do poder.
O argumento de que “apenas os EUA
podem proteger” a ilha não é novo. É a reedição do velho léxico imperial do
século XIX, quando potências se arrogavam o direito de tutelar territórios e
povos considerados incapazes de se defender. A diferença é que agora o tutelado
é um membro fundador da Otan. A humilhação pública da Europa não é um efeito
colateral; é parte do método. Ao reduzir aliados à condição de dependentes
ingratos, Trump reorganiza hierarquias sem precisar disparar um tiro.
No Oriente Médio, o tom muda, mas a
lógica permanece. Ali, não se fala em negociação imobiliária, mas em segurança,
contenção e estabilidade. A mobilização militar em curso contra o Irã segue um
roteiro conhecido: pressão externa combinada à exploração de tensões internas,
com a retórica da libertação sempre pronta para ser acionada. A história
recente recomenda ceticismo. Derrubar regimes é fácil; construir ordens
políticas estáveis mostrou-se sistematicamente além da capacidade, ou do
interesse, das potências interventoras.
Groenlândia e Irã são, portanto,
dois tabuleiros da mesma partida. No Ártico, Trump testa até onde pode ir sem
usar força aberta, normalizando a ideia de aquisição territorial entre aliados.
No Golfo, prepara a força para que ela não precise ser usada, ou, se for, que
seja rapidamente decisiva. Em ambos os casos, o alvo último não é apenas
regional. Trata-se de conter Rússia e China em todos os eixos possíveis: no
gelo, no deserto, no mar.
A Europa assiste a tudo com
perplexidade e indignação moral, mas pouca capacidade de reação. A Otan,
apresentada como aliança entre iguais, revela-se cada vez mais um protetorado
assimétrico. O Artigo 5º vira fetiche jurídico; a proteção real depende da vontade
política de Washington. Trump apenas verbaliza o que seus antecessores
preferiram disfarçar sob linguagem diplomática.
Nada disso é improviso ou loucura. É
regressão consciente a uma política internacional sem verniz, onde ameaça,
escárnio e demonstração de força voltam a ser instrumentos legítimos. Quando
Trump diz que “não quer usar a força”, o que realmente afirma é que ela já está
lá, visível no horizonte, implícita na negociação, silenciosa nos radares
desligados dos porta-aviões.
Um pedaço de gelo no Ártico e um mar
de fogo no Oriente Médio parecem temas desconexos apenas para quem ainda
acredita que vivemos em um mundo governado por regras. Para quem observa a
história de longa duração,um historiador experiente, trata-se apenas do retorno do normal:
impérios não pedem; tomam. Quando dizem que não precisam usar a força, é porque
já a colocaram sobre a mesa.