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Wellington Freire

Um pedaço de gelo e um mar de fogo

Wellington Freire - 23 de Janeiro de 2026 | 13h 03
Um pedaço de gelo e um mar de fogo

Donald Trump diz que não quer usar a força, ele quer apenas a Groenlândia. A frase, dita em Davos com o desassombro de quem pede um café, deveria ser lida com atenção histórica: poucas vezes, na política internacional, a força foi tão claramente pressuposta justamente quando se afirma que ela não será usada.

Enquanto o presidente americano discursava sobre “um grande e belo pedaço de gelo”, os Estados Unidos deslocavam porta-aviões, caças, reabastecedores e sistemas antimísseis para cercar o Irã. De um lado, o Ártico apresentado como objeto de negociação civilizada; de outro, o Oriente Médio tratado como teatro natural da guerra. A aparência de dispersão estratégica esconde, na verdade, uma coerência brutal.

A Groenlândia não é um capricho exótico e, sim, um  território. E o retorno explícito da centralidade do território é um dos sinais mais claros de que a ordem liberal pós-1945 entrou em colapso. Durante décadas, acreditou-se, ou fingiu-se acreditar,  que mercados, instituições multilaterais e normas jurídicas haviam domesticado a velha política das grandes potências. Trump não compartilha dessa ilusão. Ao reivindicar a Groenlândia, ele afirma algo que sempre foi verdade, mas raramente dito de forma tão crua: espaço físico, rotas marítimas, controle aéreo e posições geográficas continuam sendo a base do poder.

O argumento de que “apenas os EUA podem proteger” a ilha não é novo. É a reedição do velho léxico imperial do século XIX, quando potências se arrogavam o direito de tutelar territórios e povos considerados incapazes de se defender. A diferença é que agora o tutelado é um membro fundador da Otan. A humilhação pública da Europa não é um efeito colateral; é parte do método. Ao reduzir aliados à condição de dependentes ingratos, Trump reorganiza hierarquias sem precisar disparar um tiro.

No Oriente Médio, o tom muda, mas a lógica permanece. Ali, não se fala em negociação imobiliária, mas em segurança, contenção e estabilidade. A mobilização militar em curso contra o Irã segue um roteiro conhecido: pressão externa combinada à exploração de tensões internas, com a retórica da libertação sempre pronta para ser acionada. A história recente recomenda ceticismo. Derrubar regimes é fácil; construir ordens políticas estáveis mostrou-se sistematicamente além da capacidade, ou do interesse, das potências interventoras.

Groenlândia e Irã são, portanto, dois tabuleiros da mesma partida. No Ártico, Trump testa até onde pode ir sem usar força aberta, normalizando a ideia de aquisição territorial entre aliados. No Golfo, prepara a força para que ela não precise ser usada, ou, se for, que seja rapidamente decisiva. Em ambos os casos, o alvo último não é apenas regional. Trata-se de conter Rússia e China em todos os eixos possíveis: no gelo, no deserto, no mar.

A Europa assiste a tudo com perplexidade e indignação moral, mas pouca capacidade de reação. A Otan, apresentada como aliança entre iguais, revela-se cada vez mais um protetorado assimétrico. O Artigo 5º vira fetiche jurídico; a proteção real depende da vontade política de Washington. Trump apenas verbaliza o que seus antecessores preferiram disfarçar sob linguagem diplomática.

Nada disso é improviso ou loucura. É regressão consciente a uma política internacional sem verniz, onde ameaça, escárnio e demonstração de força voltam a ser instrumentos legítimos. Quando Trump diz que “não quer usar a força”, o que realmente afirma é que ela já está lá, visível no horizonte, implícita na negociação, silenciosa nos radares desligados dos porta-aviões.

Um pedaço de gelo no Ártico e um mar de fogo no Oriente Médio parecem temas desconexos apenas para quem ainda acredita que vivemos em um mundo governado por regras. Para quem observa a história de longa duração,um historiador experiente,  trata-se apenas do retorno do normal: impérios não pedem; tomam. Quando dizem que não precisam usar a força, é porque já a colocaram sobre a mesa.

 



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