Aras: “É hora de corrigirmos rumos para que o lavajatismo não perdure”.
A maior operação de combate à corrupção do mundo foi sepultada, hoje, com o ato formal assinado por Augusto Aras. A força-tarefa da Lava Jato no Paraná passou a integrar o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público Federal (MPF).
Foram quase sete anos de intenso combate à corrupção, totalizando 79 fases, 1.450 mandados de busca e apreensão, 211 conduções coercitivas, 132 mandados de prisão preventiva e 163 de temporária.
Segundo o MPF, foram colhidos materiais e provas que embasaram 130 denúncias contra 533 acusados, gerando 278 condenações (sendo 174 nomes únicos) e chegando a um total de 2.611 anos de pena.
Foram também propostas 38 ações civis públicas, incluindo ações de improbidade administrativa contra três partidos políticos (PSB, MDB e PP) e um Termo de Ajuste de Conduta firmado. A isso ainda se somam 735 pedidos de cooperação internacional – sendo 352 pedidos a outros países (ativos) e 383 passivos (solicitações de outros países ao MPF).
Em 2015, foram 66 pedidos ativos e oito passivos, enquanto que, em 2019, foram 67 ativos e 133 passivos. A evolução desses dados demonstra a seriedade e a eficiência da operação, que passou a cooperar com investigações do mundo todo.
Nesse período, mais de R$ 4,3 bilhões foram devolvidos aos cofres públicos, por meio de 209 acordos de colaboração e 17 acordos de leniência, nos quais se ajustou a devolução de quase R$ 15 bilhões.
“O legado da Força-Tarefa Lava Jato é inegável e louvável, considerando os avanços que tivemos em discutir temas tão importantes e caros à sociedade brasileira”, afirma Alessandro José de Oliveira, que substituiu Deltan Dallagnol e, agora, será o coordenador do núcleo da Lava Jato no Gaeco.
De acordo com o MPF, cinco dos 15 integrantes da Força-Tarefa passaram a integrar o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado e darão continuidade aos trabalhos da operação.
Embora tenha dito, em sua sabatina no Senado, que apoiava a Força-Tarefa, Aras sempre foi crítico da atuação da Lava Jato. Travou diversas quedas de braço com os procuradores e tentou obter todos os dados da Lava Jato para a PGR, sendo impedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Aras: “o lavajatismo há de ser superado pelo natural, bom e antigo enfrentamento à corrupção”.
Ele conseguiu. A esperança do brasileiro foi sepultada, definitivamente, por Augusto Aras. Foi a vitória do establishment, dos criminosos, dos políticos corruptos, oportunistas de plantão e cúmplices morais da corrupção.
Assim como critico duramente o tétrico comportamento de Bolsonaro na pandemia, em relação à saúde, elogio a atuação no aspecto econômico, pois conseguiu repassar grande volume de recursos para os estados, ajudou empresas, preservou empregos e fez o “coronavaucher”, fundamental para manter alimentada a população de 40 milhões de brasileiros que vivem na pobreza ou na extrema-pobreza. Além disso, esse dinheiro ajudou a manter o consumo, evitando saques e o aumento da criminalidade.
Com a persistência da pandemia, em 2021, a situação torna-se mais dramática, porque já não há reservas na população; o ritmo das doações de solidariedade tende a cair; e a economia ainda mantém um alto desemprego. Desse modo, considero fundamental a manutenção dessa ajuda, para quem mais precisa (com melhor fiscalização), por mais seis meses, pois, nesse tempo, pelo menos metade da população já deverá estar vacinada, facilitando a retomada.
O governo alega que não tem recursos, mas acaba de gastar R$ 3 bilhões em emendas, na eleição do Congresso; o Judiciário mantém seus penduricalhos milionários; a classe política mantém seus privilégios. Agora, é a hora do sacrifício, de mostrar que os civilizados discursos possuem alguma consistência.
O “coronavaucher” pode ser mantido de forma mais restrita, sem adicionais para mães, beneficiando um menor número de pessoas – já foram 67 milhões de brasileiros –, que tenham maior necessidade. Esta ajuda, mesmo restrita, produziria algum alívio, nesse extrato social tão espoliado.
Infelizmente, há uma luta política intestinal, que deturpa o debate e vitimiza os brasileiros, contaminados pela insanidade ideológica e contagiados pela Covid-19. Nenhuma barbárie que pudéssemos imaginar para este século nos reservaria as câmaras frigoríficas e mortes por asfixia, em Manaus.
As mortes sem luto, solitárias, sem as famílias, já tão terríveis, são, agora, agravadas pelo dantesco desespero por oxigênio. O caos administrativo, gerado por uma estrutura de poder corrupta e incapaz, no estado, e por um Ministério da Saúde atônito e sem diretriz, que interpreta errado os ciclos da doença, está cobrando, violentamente, o preço de nossa leniência.
Simbolicamente, o Ministério da Saúde tem na perda de testes estocados em um galpão de aeroporto; na falta de seringas, pois não foram compradas a tempo; na falha de compras prévias das vacinas, que obriga o governo a ficar de pires na mão diante da Índia e da China, correndo para compensar a letargia; e no desmascaramento das mentiras contadas pelo ministro da Saúde o perfeito retrato de seus desmandos. Além disso, temos a opção, letal, do presidente pela imunidade de rebanho, inatingível sem vacina ou atingível, apenas, se aceitarmos uma hecatombe sanitária.
Depois da Amazônia, Rondônia já anuncia o colapso da Saúde. Também Mina, e até São Paulo. Os estados do Norte, distantes, isolados, com serviços precários, irão cair um após o outro, em trágico dominó.
A campanha eleitoral, as festas de fim de ano e o Enem alimentaram a disseminação do vírus, inclusive com nova cepa, brasileira, talvez mais contagiosa, que acaba de ser detectada no Japão e em uma série de nove casos na Inglaterra.
Não há nenhuma certeza de que as novas cepas podem ser controladas ou escaparem das vacinas. Estudos iniciais mostram que sim, para a variante inglesa (por uma vacina), mas não para a africana.
Quanto mais gente infectada, maior a chance de desenvolvimento de uma variante com “escape imunológico”, o que nos daria um cenário devastador inimaginável. Isso torna mais urgente e imperativo o esforço de vacinar, de conter o contágio, para reduzir a chance de novas mutações. Os vírus são sobreviventes natos e caçam falhas, através de suas mutações, para a sobrevivência. É um competidor feroz, nessa corrida.
Longe desse texto querer assustar o leitor. O que não admito mais – e isso desperta os meus instintos mais primitivos – é essa apropriação política da pandemia, essa instrumentalização da tragédia e da morte para a disputa de poder, que repercute, nas redes sociais, com seu debate inútil e feito aos berros. O que desejo é alertar que estamos em uma guerra; que, nas guerras, há dores e sacrifícios, mas que não existe outro caminho para vencer.
Nós ainda não vencemos e o inimigo muda o poder de contágio e ferocidade de forma progressiva. Lembro-me de Churchill, após a vitória em El Alamein, dirigindo-se aos britânicos: isso não é o fim, não é nem mesmo o começo do fim, mas, talvez, seja o fim do começo. Estamos apenas no fim do começo e se não nos unirmos, pagaremos em desespero, falência e mortes o custo de nossa desunião.
O caos em Manaus não deriva apenas do aumento do contágio pela Covid-19 – um medo que apavora a todos –, mas da incapacidade administrativa e desordem que vigora no estado, com o governador Wilson Lima (que já teve até pedido de prisão feito pela Polícia Federal) e, em especial, em Manaus, com o legado do ex-prefeito Arthur Vírgilio.
Incapazes de organizar, de forma mínima, e ampliar, de forma adequada, a rede de saúde da capital, o que Manaus vai deixar na memória é a terrível morte por asfixia. Mesmo com a chegada da vacina, o que temos é a desordem administrativa, com o sumiço de 60 mil doses e nomeações para furar a fila da imunização.
É nítido e claro que as autoridades locais não têm mais capacidade de gestão e precisam ser cobradas e responsabilizadas pela tragédia que ocorre. Não se pode deixar de culpar o Governo Federal, mas é preciso não esquecer que a gestão local foi incapaz de administrar, de forma apropriada, os volumosos recursos que foram repassados pela União.
O horror vivenciado em Manaus é um pacto coletivo de mediocridade.