“O Brasil marcou mais de 190 mil mortes. Se incluirmos, nesse número, as mortes subnotificadas, que, conservadoramente, representam 20% do total atual, há cerca de 230 mil mortos pela Covid-19 e os números crescem de forma significativa”, afirmou o ex-ministro da Saúde, Nelson Teich.
Estamos vivendo a segunda onda e, com as aglomerações (até de jatinhos, no sul da Bahia), ela ainda se estenderá, de forma severa, por todo janeiro de 2021.
Convém preparar a rede de saúde.
Um grupo de promotores e procuradores do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) encaminhou um abaixo-assinado ao gabinete paulista de crise contra a Covid-19, solicitando que todos os membros do MP recebam a vacina antes da população. O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) fizeram pedidos semelhantes.
Essa elite do funcionalismo trabalha em situações estáveis e em ambientes controlados, muito diferente das populações de risco e de outros funcionários que trabalham em circunstâncias muito adversas e de alto risco de contágio.
O pedido – felizmente, negado – é só um retrato do egoísmo de nossa elite judiciária e de sua incompreensão do princípio de solidariedade e convivência social. Apenas adornam, negativamente, suas biografias.
O mundo, já exausto e espoliado pela prolongada pandemia, continua ferozmente acossado por uma segunda onda da doença, que sequer sabemos se será a última. Relatos de reinfecção, embora ainda pequenos – talvez subestimados –, instalaram uma preocupação extra, porque torna a imunidade de rebanho ainda mais distante e a segurança de quem já teve um muro derrubado.
Por outro lado, as mutações anunciadas, uma na Inglaterra, mais contagiosa, e outra na África do Sul, ainda em estudo, nos colocam, claramente, diante da necessidade da vacina como esperança de controle mais efetivo e, talvez, até total.
As vacinas, no entanto, tornaram-se um cavalo de batalha político, econômico e insano. Nenhum avanço da ciência poupou tantas vidas, dores e custos à saúde do que as vacinas. Os que hoje a recusam não viveram a varíola, o medo da sequela da poliomielite, a tuberculose cotidiana, a hepatite B, sexualmente transmissível, dentre tantas outras.
O movimento antivacina é uma insanidade – para ser gentil. É a supremacia do individual sobre o coletivo. O resultado claro disso foi o ressurgimento do sarampo, nos Estados Unidos (onde já estava extinto) e no Brasil, com vítimas. Entre os argumentos falíveis está o que diz que não precisamos vacinar porque a mortalidade da Covid-19 é baixa, como se quase 200 mil vidas já perdidas fossem só uma estatística. O que nos fez civilização foi exatamente a capacidade de não deixar ninguém para trás, de proteger os mais fracos. Menos que isso é selvageria.
Assim, a vacina é necessária para a absoluta maioria, porque toda vez que reduzimos a “imunidade coletiva” – com os nascimentos, por exemplo – vamos aumentando a chance de o vírus reaparecer. Não custa lembrar que mesmo na Suécia, sem medidas de contenção, a imunidade não chegou a 15%. Agora, o país está com as UTIs lotadas e o Rei pedindo desculpas pelas mortes.
Isso significa que não se deve exigir que os dados das vacinas sejam apresentados antes de seu uso? Claro que não. Embora esparsos, há relatos de problemas pontuais com outras vacinas. Por isso a necessidades dos testes de eficácia e segurança, ao menos de curto prazo.
Muitos questionam o tempo, mas a verdade é que nunca houve um esforço mundial da ciência desse tamanho e com informações compartilhadas, o que reduz o processo. Até agora, já foram vacinadas mais de um milhão de pessoas, com seis reações alérgicas, com uma das vacinas, o que é perfeitamente aceitável.
E a vacina chinesa? Bobagem ser chinesa. Não que a ditadura chinesa que controla todas as informações e não garante liberdade de expressão não mereça desconfiança, mas não custa lembrar que a China é, hoje, uma superpotência de produção de insumos farmacêuticos, ao lado da Índia. O mundo depende dela – em mais de 50%, em alguns setores –, de respiradores a luvas, de máscaras a insumos para remédios.
Recentemente, tivemos problemas com um anti-hipertensivo que veio de lá e tinha sinais de contaminação, tendo sido suspenso, mas isso, também, não invalida a produção chinesa. A vacina chinesa é da Sinovac, que tem sido denunciada, por corrupção, em alguns países, mas isso não invalida a produção geral do país. Aliás, como ficariam nossas obras de engenharia se seguíssemos esse modelo de análise?
O que quero dizer é que desde que a Anvisa inspecione, que os dados científicos sejam apresentados – e com o aval do Butantan, um renomado instituto brasileiro – e que eles confirmem eficácia e segurança, ela pode ser usada.
É certo que João Dória não passa confiança a ninguém desde os tempos em que foi expulso da Embratur. E é inaceitável que queira empurrar a vacina “na tora”, como diz a linguagem popular, mas interesse político não torna o produto ineficiente, per si. Do mesmo modo, a inaceitável, bisonha, medíocre posição de Bolsonaro, desestimulando a vacinação – e isso acaba repercutindo em outras – é um atraso, especialmente no Brasil, que tem um programa de vacinação mundialmente exemplar.
Bolsonaro é partidário, como já deixou claro, do morra quem tiver de morrer, “maricas” ou não, afinal todos vão morrer, um dia. Não se pode exigir compreensão humana e respeito pela ciência ao universo limitado e raso que lhe formou. O que ele deveria exigir e fazer era blindar a Anvisa, para que ela tivesse o máximo rigor científico, sem estar sujeita a influências políticas ou militares, para que, assim, tivéssemos confiança no seu parecer.
Então, continue mantendo o distanciamento social possível. Use máscara, álcool-gel e vacine-se com qualquer vacina que os testes mostrarem qualidade. É seu fazer pelo mundo.
Joseph Conrad, na obra prima intitulada "O Coração das Trevas", traz a fala do personagem Kurtz, um europeu que enlouqueceu no Congo e que resume a história colonial da África: "O horror, o horror". Francis Ford Copolla baseou-se no livro para filmar "Apocalipse Now". A insanidade da guerra foi retratada na cena antológica em que helicópteros arrasam um vilarejo ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner. E Marlon Brando, como Kurtz, define o que a guerra deixou: “O horror, o horror”.
Apesar de ter a quarta população do Brasil (15 milhões), a Bahia tem uma dramática situação social. O estado (PIB R$ 286.240.000) perdeu a sexta posição na economia para Santa Catarina (PIB de R$298.227.000). Paraná, quinto colocado, tem PIB de R$ 440.029.000 milhões. O PIB per capita, no entanto, em 2018, foi de R$ 19.324, o que nos deixa em 18º lugar. Quando analisamos a renda per capita, em 2019, a Bahia ocupou o 20º lugar, com R$912 reais por habitante.
Em compensação, a Bahia é o estado com maior número de homicídios, por 4 anos seguidos. Em 2019, o Mapa da Violência mostrou que a Bahia teve a maior quantidade de mortes violentas do Brasil. De 2008 a 2018 o número de homicídios aumentou em 40,8%, sendo que a Bahia ocupa o quinto lugar no ranking da taxa de homicídios entre jovens por 100 mil habitantes, com índice de 110,7.
Temos 13 mil presos, sendo 6.300 provisórios, mas, segundo o Monitor da Violência, temos a mais baixa taxa de presos por 100 mil habitantes do país, com 103, enquanto Pernambuco tem 350 e São Paulo 501. A média brasileira é 335. Temos 33 mil policiais militares e 5 mil no setor civil, mas o número de policiais por habitante é apenas 70% do necessário. A taxa de homicídio é de 40-50 por 100 mil habitantes, enquanto em São Paulo é em torno de 10 por 100 mil.
O gasto per capita é R$290,12, o que nos colocou em 8º lugar, em 2018. Ou seja: falta polícia, falta investimento e somos o estado em que mais se mata, embora sejamos o estado em que menos se prende. O retrato perfeito do desmando na área de Segurança é o afastamento do Secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa, no âmbito das investigações da Operação Faroeste.
Na educação, o desastre não é menor. A taxa de analfabetismo é a maior do Brasil, com 13%. E cresceu 3% em relação a 2016. No IDEB, temos o terceiro pior resultado no ensino médio (média 3,5) e segundo pior no ensino fundamental (média 4,5). É uma educação que mutila o futuro e condena essa população ao emprego de baixa renda e a dependência do poder estatal.
Não é à toa que temos tantos pobres. Na Bahia, em 2019, quatro em cada 10 moradores (40,4% da população) estavam abaixo da linha da pobreza monetária. E pouco mais de 1 em cada 10 (12,5%) estava abaixo da linha de extrema pobreza, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Este valor é o maior registrado em todo Brasil, dando ao estado o segundo maior número absoluto de pobres (6,006 milhões de pessoas) e o maior de extremamente pobres do país (1,853 milhão).
Quando olhamos o índice de Gini, que mede a desigualdade social, vemos que ela tem aumentado. Em 2019, o Índice de Gini do rendimento médio mensal de todos os trabalhos no estado, mostra que ele subiu do 9º maior em 2018 (0,524) para o 7º em 2019 (0,533). O Índice de Gini mede a desigualdade e vai de 0 a 1, sendo mais desigual quanto mais próximo de 1.
A Bahia tem sido uma capitania hereditária, ao longo da história. E esse é o legado dos grupos no poder – o passado e o atual. Diante da brutal violência social que temos, do modelo de administração que se perpetua, das perspectivas atuais e do que vemos fora da massiva propaganda que vende ficções, só podemos repetir: “O horror, o horror”.