César Oliveira - 29 de Março de 2020 | 22h 41
A ciência erra, mas a falta de ciência erra mais. E é possível defender uma quarentena otimizada por testes tentando preservar a economia dos mais frágeis, mas o que Bolsonaro está fazendo, na contramão do mundo e até de Trump, e contra seu Ministro da Saúde, é um equívoco.
Evidente que não existe dado definitivo sobre qual é a melhor escolha nessa batalha entre economia e saúde, assim como sobre o comportamento do vírus em um país tropical e extenso como o Brasil, mas até agora não temos dados que sugiram comportamento diferente. Diante disso é mais adequado estar preparado e trabalhar com contenção do que estimular a expansão da doença.
Bolsonaro está em uma queda de braço perigosa: demite seu Ministro da Saúde, nesse momento, e será crucificado; mantém, e mostrará que seu poder já está limitado, pois, não foi obedecido.
Há um jogo, sem dúvida, sendo jogado para o período pós-pandemia e nele Bolsonaro será a grande caça. É melhor alinhar seu discurso e se apoiar na sua boa equipe técnica.
Enquanto isso, quem pode, fica em casa.
César Oliveira - 29 de Março de 2020 | 22h 40
A maior falha, a mais clamorosa, é a inexistência de testes. Imobiliza recursos humanos na saúde, ocupa leitos de isolamento, traz desgaste emocional, sem necessidade.
A pandemia foi mais que anunciada. Deixar para comprar testes essa semana foi a maior falha de uma equipe que tem feito um ótimo trabalho no enfrentamento a doença.
César Oliveira - 24 de Março de 2020 | 12h 52
A psicologia Gestalt usa a ideia de figura e fundo para ilustrar como focamos nossa percepção em algo, deixando de ver o quadro completo. Assim tem sido o estéril debate sobre saúde versus economia, diante de uma pandemia, como se pudessem ser fatos isolados. Os que defendem a ideia de não haver o isolamento social, dizem que devíamos proteger os idosos ( esquecem pacientes crônicos, e que a doença, acima de 60 anos já tem mortalidade de 3,6%, chagando a 8% para os que tem mais de 70 anos e 22% para os acima de 80) e liberar o restante. A ideia é: infecta todo mundo, quem tem de morrer, morre, quem tem de sobreviver, sobrevive e fica imune, já que após uns 70% da população adquirir anticorpos, uma pandemia começa a decrescer. Assim, salvaríamos a economia, pois, segundo eles a recessão pós- crise será muito pior. É mais rápido, mas é mais mortal. O conceito é uma espécie de eugenia viral, em que sobreviveriam os aptos. Nós já vimos essa teoria aplicada na história da humanidade, no que deu. O erro é olhar a figura esquecendo o pano de fundo.
Acontece que se não houver isolamento social e o vírus se expandir sem nenhuma contenção irão morrer muito mais pessoas que o necessário e que não deveriam morrer porque NENHUM sistema de saúde dará conta. Nem o privado, nem o público. A taxa de letalidade subirá assustadoramente com as pessoas morrendo nas portas dos hospitais sem a menor chance de acesso, sem ventiladores, sem insumos, leitos, sem equipe de assistência. Precisaremos de todos os caminhões do Exército em fila indiana para transportar todos os corpos, e nem os conseguiremos enterrar. Basta ver o que acontece na Espanha e Itália sem que a população toda esteja exposta. Imaginem com a livre circulação do vírus para atingir 210 milhões sem o achatamento da curva que o isolamento promove. Alguns, sugerem que 50 milhões vivem isolados como se 160 milhões não fossem o bastante para o caos.
O segundo argumento é uma espécie de delírio: protegeremos nossos idosos. Nessa parte eles não dizem como, talvez congelando-os e os acordando depois, porque com a circulação livre do vírus é claro, óbvio ululante, evidente, que a chance de contágio se torna muito maior. Eles também imaginam que estamos em uma Suíça e esquecem que 50 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza, 100 milhões sequer tem água encanada e esgoto, e convivem em ambientes com toda família, com zero possibilidade de isolamento. Como fazer com que 32 milhões de brasileiros, maiores de 60 anos, fiquem isolados, apesar de precisarem de remédios, cuidados, alimentação, serviços, é um mistério a ser esclarecido. Os que propõem, com certeza, tem condições econômicas de isolarem seus familiares, embora o vírus tenha dado repetidas lições que não respeita status social. A frase não passa de um sofisma vazio.
Significa que temos que ter desprezo pela economia? Não. É preciso buscar o melhor equilibro entre os dois parâmetros, mas a ideia errada que propõem faz com que tenhamos a impressão que o Brasil não depende da economia mundial e se adotarmos essa medida, ao contrário de TODO restante do mundo, nós estaremos genialmente salvos. Tolice, ainda que o fizéssemos, dependemos dos outros e o caos seria tão grande com a pandemia sem controle que a economia continuaria tendo severos impactos. Também não se leva em conta as ações de governos em ajudar na recuperação, nem na própria recuperação de países que já encerraram suas crises com, pasmem!, isolamento. No entanto, tenho reafirmado que é preciso garantir vias de abastecimento e de infraestrutura mínima.
E o que acho correto? A combinação de testagem massiva precoce, com isolamento social. O gasto em investimento na compra de testes é poupado na administração controlada da pandemia, sem colapso apocalíptico da saúde. A medida que a pandemia for sendo controlada ir liberando atividades de forma planejada. A China mostrou que funciona e sua economia já está retomando atividade com força. Singapura, Hong-Kong, Coreia, Alemanha, mostram o mesmo resultado, mas aqui acreditamos que podemos redescobrir a pólvora ao custo de cadáveres alheios.
Por último há uma questão ética, embora esse seja um conceito que não parece importante para muitos: é correto deixar um vírus contaminar toda a população, sem termos tratamento adequado, sem termos sistema de saúde que dê suporte, e vitimando exatamente a população mais incapaz de se defender, em nome de seus sanduíches? Se você achar que sim, eu lhe desejo a paz que lhe for possível.
Economia do mundo será retomada com mais ou menos dificuldade, mas será. Os mortos, não. E eu não nasci para perder vidas se posso lutar por elas.
César Oliveira - 23 de Março de 2020 | 10h 58
Não acredito que ainda passe pela cabeça de alguém a realização da Micareta, mesmo após a crise, com seus mortos a serem lembrados. É um mínimo de respeito. Ela está definitivamente cancelada.
Então, proponho que os R$ 10 MILHÕES que seriam gastos com a festa sejam aplicados na construção de um hospital de campanha, no Joia, no 35 BI, ou seja onde for.
Não existe morte aceitável. A hora é de lutar pela vida de cada um.
PS: após essa proposta que escrevi no Face o Secretário Edson Borges nos corrigiu dizendo que o valor era de R$ 6 milhões. Como o São João inevitavelmente será cancelado, acredito que a verba pode ser recomposta.