O prefeito Colbert Martins mandou bem ao cortar os shows da Expofeira, um evento musical, em que os bovinos, caprinos, equinos, entram de gaiatos.Há muito tempo ela deixou de ter a potência de atração agropecúaria que tinha nos meus tempos de menino, e, a medida que foi definhado, compensou com a hipertofia dos shows. Tanto é, que nas mídias, divulgações, só se fala na grade dos artistas e não na pureza do guzerá, no porte dos nelores, no trote dos mangalargas.
Alguns dizem que os shows são uma estratégia para atrair público, embora, quem vai por isso só goste do boi na forma de espetinho assado nas barracas. Talvez, até seja, mas a verdade é que a Exposição de Feira deixou de ser um palco de grandes negócios, de exibição tecnológica, ou de técnicas de agronegócio.
Seja como for, nestes tempos bicudos, foi certo cortar os shows para usar os recursos em intervenções mais necessárias e vitais. È bem provável que o público seja menor com o evento redimensionado a sua função inicial, mas talvez também seja um primeiro passo para a revitalização do evento, agora, exposto a sua verdadeira dimensão e objetivo.
Reagan dizia que a liberdade estava sempre a uma geração da extinção. A liberdade não é uma dádiva divina. É um exercício cotidiano de vigilância, resistência, sacrifício, pois, só nela é possível o exercício pleno do potencial humano. Nenhuma outra forma de existência é digna ou merecedora de respeito.
A opressão não se faz só pelas armas e dominação violenta. Atualmente, ela assume formais mais sutis, imperceptíveis, de dominação, que podemos chamar de despotismo em nuvem ou imaterial. Não há, na maioria das vezes, um agente impositor definido contra o qual se possa pegar em lanças e combater o moinho, mas mecanismos subliminares que tentam te impor padrões de consumo, comportamento, gostos, modelos, opiniões, e valores. E utilizam como elemento cerceador, não a arma tradicional, mas outras ações, “armas metafóricas”, mas nem por isso menos violenta, ou letal, como a exclusão, a segregação, a não inclusão, a rotulação com algum epíteto que cause constrangimento e desconforto moral.
Aliado a isso, todos os elementos, estruturas, núcleos, conceitos, ritos, valores, que funcionem como forças de resistência, devem ser destruídos, dessacralizados, ou relativizados em sua importância.
A origem podem ser governos, grupos de pressão, minorias, empresas-nação, fundos de capital, produtores e gestores da revolução da comunicação, ou até mais difusas, em certas situações, como flash-mobs sem origem convocatória, gerados por algum fato que atinja um senso comum pré-formado. Frequentemente esses agentes têm interfaces comuns, que convergem para o mesmo interesse de manipulação.
É certo que nunca tivemos tanta liberdade, tanta possibilidade de expressão plena da liberdade, mas ao mesmo tempo ela nunca esteve tão ameaçada, seja pela multiplicidade de agentes limitadores dessa liberdade -que vai do indivíduo-censor à sociedade-censora-, e dos mecanismos disponíveis para esse objetivo.
A nossa não percepção do controle, o que faz com que a capacidade de reação seja reduzida em sua intensidade e persistência, é o maior risco que corremos.
A liberdade não é um território estranho, ou inóspito. Ao contrário, é nossa moradia essencial. E não é um bem imperecível, mas, sim, uma condição sempre ameaçada de extinção. Não há liberdade, sem que se lute por ela. Inclusive, por aquela, que você nem percebe que perdeu.
Dia após dia, mês após mês, ano após ano, medo após medo, vemos os índices de violência crescendo e as mesmas justificativa das autoridades que afirmam nunca terem investido tanto em segurança, em um discurso vazio e pluripartidário. A verdade, no entanto, é que dia após, mês após mês, ano após ano, medo após medo, só a vemos crescer e nos assombrar.
Vivemos sob o manto do temor, do sono inquieto, do andar apressado e vigilante, como se estivéssemos em um planeta selvagem e inóspito e não na segunda cidade da Bahia. Aliás, a Bahia tem 5 das cidades mais violentas do Brasil. No último fim de semana, Salvador, viveu uma carnificina com 30 mortos, e, nesse fim de semana, foi a vez de Feira, com 15 mortos. Se considerarmos o número de habitantes em relação à capital veremos que o feiroeste parece ter-se instalado de vez no município.
A Bahia teve um aumento de 98% no número de crimes em 10 anos. Estamos encarcerados, reféns entre grades, veículos blindados, olhares suspeitos, horários intransitáveis e cada vez mais dependemos da sorte, da desconfiança extrema e da renúncia a liberdade. E não encontramos respostas em nossos líderes políticos, pois, é como se houvesse uma guerra perdida. Eles prometem nos proteger a cada eleição, mas o que vemos é que estamos sós e eles não conseguem nos ajudar, dia após dia, mês após mês, ano após ano, medo após medo.
Desde que Garrincha inaugurou a lenda no futebol brasileiro, em 1958, na Suécia, e Pelé tornou imortal até os gols que perdeu na Copa de 70- como o espetacular e incomparável drible de corpo no goleiro Mazurkiewicz, do Uruguai- o futebol brasileiro se manteve como o maior produtor de dribles, e vencedor mundial. Por isso, toda vez que entra em campo, colocando o Brasil de chuteiras, esperamos raça e glória; entrega e vitórias. O brasileiro é implacável com as derrotas, até mesmo quando são empates.
Hoje, diante da Suíça- fenomenal especialista em queijos, chocolates e contas bancárias secretas-, a mítica não entrou em campo e o espetacular resumiu-se ao belo gol de Felipe Coutinho. Ao treinador faltou a criatividade de mudar o estilo do jogo, já que as substituições renovavam o fôlego, preservando o estilo; a Neymar faltou corresponder ao que vale e a sua responsabilidade; ao time, regularidade no desempenho; à defesa, melhor posicionamento e ao goleiro chegar junto em bola na pequena área.
Não houve pênalti; Miranda não conseguiria saltar na bola do gol, com ou sem empurrão. Não importa que os outros também foram mal na estréia. O que interessa é que o Brasil de hoje foi uma fake-news. Esperamos que sirva de lição para o próximo jogo: quando o Brasil entra em campo, a lenda deve ir junto.
O Brasil é caro. Selvagemente caro, pela derrama fiscal de um governo insaciável em arrecadar, para gastar mal, prestar péssimos serviços, e distribuir verba a uma elite corrupta, patrimonialista, devassa, e enriquecer, de forma incomparável no mundo, sua micro fatia de milionários e conservar na miséria absoluta, também de forma incomparável no mundo, entre seus iguais, a maior parte da população.
Sua pequena classe média é achacada de todas as formas, pagando, aqui, muito mais caro por produtos que são consumidos no exterior pela metade do preço, com o dobro de qualidade. Esta parcela da sociedade- por não conseguir crescer- limita que o custo Brasil seja dividido por mais pessoas, então, tem de trabalhar, a cada ano, por mais dias para arcar com os impostos diretos, e os indiretos, taxas, pedágios e mil formas que entidades, administradores, inventam, para tirar dinheiro do cidadão.
Boa parte da classe média nacional viveria muito bem no exterior- com saúde, segurança, escola, transporte de graça- se ganhasse lá fora o que ganha aqui, mas para viver por cá, está sempre pendurada no cheque especial, no crédito consignado e no tarja preta.
O Brasil é um lugar selvagem explorado por líderes indecentes