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César Oliveira - 15 de Fevereiro de 2017 | 10h 58
Magalhães Pinto, politico mineiro, cunhou uma das frases mais citadas da política ao definir sua volatilidade: Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou. Aqui na Bahia, a frase se confirmou. Ao final da reeleição de Neto, para prefeitura de Salvador, ele era pule de dez como candidato a governador, virtualmente eleito. Aí, surgiu o fator Otto, o velho carlista de quatro costados que não teve pudor em aderir ao PT, de Wagner - à época, acossado por uma CPI da Ebal, onde, supostamente, havia um protegido seu, que o deputado Neto brandia aos quatro ventos- e que resultou em nada.
Dentro do governo, Otto tratou de dar corpo ao seu partido e se tornou - habilidoso que é- líder de um significativo lote de prefeitos, aliás, o que mais cresceu na eleição. Resultado desta força foram os espaços que ganhou no governo Rui Costa- que deve, tola ilusão, tentar mantê-lo atrelado ao seu projeto de reeleição- e a implacável derrota de Nilo, o pequeno, pois, o grande, fica no Egito.
Mobília irremovível da Assembleia, Nilo, tentava emplacar mais um mandato -o sexto-, cantou vitória e viu-se obrigado a renunciar a candidatura em uma casa que considerava extensão de seu mandato. E, por um deputado- Coronel-, que não lhe derrotaria por conta própria. A lição é sábia: mais do que o poder, o que atrai os políticos é a perspectiva do poder. Otto, tem. Aliás, Coronel, já deu uma emparedada no Executivo dizendo que se os deputados não forem bem tratados ele para a Casa.
A verdade é, neste momento, a nuvem é bastante favorável a Otto. Não tem dificuldade de construir apoio, ou apoiar, qualquer dos lados, afinal, sempre compactuou com as duas margens; o seu partido está crescendo, enquanto o partido do governador está definhando; e, ACM Neto, é jovem o bastante para saber que tempo não lhe falta. Dos três, embora tenha o poder, onde há menos perspectiva de futuro é, exatamente, no governador. E, olha que ainda temos a Lava-Jato nos calcanhares de Lula e outros graduados do partido, inclusive, do próprio.
É certo que a máquina governamental nunca pode ser desprezada, mas os tempos estão bicudos. A mudança do jogo, é verdade, deu vida nova a Ronaldo, que estava meio encarcerado na nuvem passada. Com sua sorte, habitual, Geddel desceu a ladeira das delações premiadas e o grupo de Otto botou em campo a musculatura que tem. Assim, o passe do prefeito, passou a ser valorizado para compor uma chapa alternativa, aliás, botando pressão em Neto, que não tinha muito opção de encaixá-lo na principal. Não é a toa que, ultimamente, Ronaldo vem tentando dar visibilidade estadual ao seu mandato, antes, confinado na Contorno.
O crescimento do Senador, evidentemente, deu-se, porque, além da experiência, Otto, contou com o espaço vazio, dos adversários e o beneplácito, ou omissão, do governador, afinal, em política, onde tem vaga, alguém ocupa. E ninguém enxergou que Otto estava comendo beiradas. Agora, o angu, terá mais gente disputando-o.
As nuvens mostram três grupos capazes da disputa da governadoria da Bahia. Resta esperar a direção em que os diversos ventos vão soprar.
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César Oliveira - 12 de Fevereiro de 2017 | 22h 27
A prova do CREMESP ( Conselho Regional de Medicina de São Paulo) reprovou 56% dos médicos recém formados, mesma média dos 10 anos em que tem sido realizada. Aliás, isto não é tão novo. O projeto CINAEM - melhor projeto de avaliação de escola médica que já vi-, de 1991, já sinalizava a inadequação da formação. Com a chegada do PT ao poder e a estratégia de quebrar a espinha dorsal da classe médica deu-se a abertura indiscriminada de cursos (126 de 2005-2016, sendo 72 privados e 54 públicos) quando apenas uma parte se justificaria, nos levando ao absurdo número atual de 272 cursos, com 25.000 mil vagas, atrás, apenas, da Índia, com seu 1,4 bilhão de habitantes. Evidente que o MEC não seguiu normas adequadas para autorização, pois, só muita irresponsabilidade pode justificar Vitória da Conquista, por exemplo, ter 3 cursos.
Fácil entender a proliferação, pois, como disse o próprio ex- ministro Mercadante, ao assumir, o MEC: estamos fechando o balcão de negócios. Dizem, que há políticos que receberam bastante dinheiro para conseguir autorização, mostrando que nossa miséria moral é ilimitada.
A realidade é que não temos professores capacitados para atender esta explosão de vagas - não basta ser médico, para ensinar-; não temos uma rede pública com tamanho e resolutividade adequada para ensinar com qualidade, tamanha demanda; não temos uma política de estado, efetiva, para inserção do aluno na rede, que acaba recebido como um alienígena, nas migalhas de espaço concedido; nem uma política séria, continuada, de avaliação de funcionamento.
O governo optou, agora, por uma prova, que, talvez, se torne obrigatória e pré-requisito para exercer atividade. Mantendo-se a média de São Paulo estaremos diante de outro absurdo que é o elevadíssimo custo de formar um médico, para, em seguida, deixá-lo fora do mercado, quando deveria fazer-se as intervenções, precocemente.
Para aumentar vagas ( que até acho correto, em parte) o governo deveria ter aberto algumas faculdades e ampliado e qualificado as unidades existentes- por exemplo, a UEFS- concluindo o ambulatório, fornecendo professor, equipando laboratórios, dividindo o gigantesco Departamento de Saúde, para melhor administração, e criando o Hospital Universitário, outra, de nossas insanas lutas.
No exame do CREMESP a reprovação entre as escolas públicas foi menor que nas privadas, mas subiu de 26,4% para 37,8%. Entre as privadas, subiu de 58,8% para 66,3%. Preocupante retrato, este.
Exercia o cargo de Coordenador do Colegiado de Medicina quando o curso de Feira foi reconhecido; fui parecerista para o MEC do Curso de Conquista; e, ao final do ano passado, do curso de Jequié. Além disso, Coordeno a Residência de Clínica Médica, do HGCA- estivemos na sua criação há mais de 25 anos- , e que, agora, está sendo esvaziada pelo governo. Na próxima semana estarei ministrando o XVIII Curso para Desenvolvimento de Professores em Currículos Inovadores, na UEFS, com o objetivo de ampliar o domínio pedagógico dos docentes. Conheço, portanto, a realidade de ensino em cada uma destas instâncias, as limitações e possibilidades.
A realidade mostrada pelo CREMESP é assustadora, mas é,na média, verdadeira e retrata a necessidade de colocar um freio na autorização para novas escolas e a criação de uma séria política de funcionamento para as existentes, pois o produto que entregamos a sociedade precisa ser, como sempre digo aos meus alunos: maximamente eficiente e minimamente invasivo a integridade física, econômica e afetiva do paciente.
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César Oliveira - 06 de Fevereiro de 2017 | 11h 53
O calçadão do Porto Barra, a mais icônica praia, de Salvador, revitalizado pelo prefeito, testemunha que a cidade precisa ser pensada para as pessoas. Reformada, tornou-se ponto de encontro e lazer. Eu mesmo, aos domingos, quando estou na capital, gosto de ir de uma ponta outra, vendo gente de todo tipo. Vez por outra, tomo uma água de coco, revejo as águas límpidas onde vi o mar pela primeira vez, aos dez anos. Ou me distraio olhando a areia onde um grupo de idosos estabeleceu sua arena e disputa um saudável jogo de petecas. Noutras, acabo no novo Barravento, para tomar um caldo de sururu enquanto observo a escandalosa beleza do mar, ali.
A vida segue, então, simples, afetiva, distraída, e isto não é pouco nestes tempos de conexão continua, tensão virtual e vigilância permanente. Sim, porque o mundo não tem mais lugar para distrações, inocências e permanências. Somos transitórios, em permanente autopromoção e, cada vez mais, desprovido de singelezas. A delicadeza, esta especiaria que a educação e a generosidade deram ao humano, está sendo substituída por uma objetividade igualitária e engajada, que apenas enfeia e empobrece a convivência e o cotidiano. Somos, cada vez mais, mergulhadores do raso.
Aos poucos, estamos nos convencendo que nada é perene, portanto, se falível, findável, não é merecedor de investimentos que custem esforços ou doação. Condicionados a receber, antes de dar; certos que temos direitos permanentes de admiração; vamos escasseando as relações, emudecendo dizeres e elogios desinteressados.
A extensão da desfiliação dos sentimentos é tão grande que, nós, todos, pragmáticos da sobrevivência, estamos nos deixado contaminar por esta forma de ser e nos isolando, nos tornando duros e reativos, secos e de poucas emoções profundas. Em permanente autodefesa, vamos desaprendendo os gestos que iluminam o dia de alguém.
Domingo, caminhava no calçadão da Barra, quando, em frente ao Edifício Oceania, um senhor, fez aquela curva, de bicicleta, meio desequilibrado. Passou por mim e logo adiante caiu. Era uma daquelas bicicletas que agora se aluga nas ruas e ele, claramente, tinha idade avançada e alguma dificuldade para manter-se aprumado.
Alguém, mais próximo que eu, o ajudou a levantar-se. Ele não se constrangeu, justificou algo, mas foi preciso que o rapaz o ensinasse em que posição ele colocaria o pedal para facilitar recomeçar a andar. Era visível que estava com pressa e disposto a continuar. Foi então, quando ele se preparava para sair, que o rapaz recolheu algo do chão, que havia caído da pequena cestinha presa ao guidom, e lhe entregou: um ramo de flores.
Ele o pegou, agradeceu muito, recolocou no lugar e saiu titubeando, mas em frente, em sua bicicleta. Nunca vou saber quem ele é, nem para quem havia comprado o ramalhete, mas, pela rapidez, e cuidado, era certamente alguém que ele tinha desejo e urgência de encontrar, e agradar, até mesmo se arriscando a pedalar já sem muita habilidade.
De repente, tendo o sol e o mar, como testemunhas, mas sem que nunca venha a saber o que fez, o velho ciclista anônimo, tornou meu domingo uma pequena obra de arte, pela lição e imensa delicadeza de me mostrar que ainda se oferece flores.
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César Oliveira - 04 de Fevereiro de 2017 | 16h 19
Não é o desamparo que educa, nem estabelece valores como solidariedade, pertencença, compromisso, lealdade, dever, ética, responsabilidade. Ao contrário, sempre foi o bando - apesar de seus problemas- que nos salvou e nos trouxe proteção, cuidado, permanência. Como queremos, cada vez mais, nos desobrigar de tudo, nos afastarmos de decisões e responsabilidades, para nos dedicarmos ao eu hedonista e individualista, precisamos combater a força conservadora e exigente que é a família, afinal, ausente ela, teremos o território livre para o eu, centro, do ponto de vista; e, consequentemente, o Estado guia, do ponto de vista político.
Como diz Dostoiévski em seu brilhante Irmãos karamazov: se Deus não existe, tudo é permitido. Como a religião - ao menos no Ocidente- já não é motivadora ou moduladora do sentido da vida, assim como a luta pela existência, a cultura, ou o patriotismo, estamos presos somente aos fiapos das ligações- ainda que perigosas- familiares. Ausente ela, tudo é permitido, ou, tudo, se torna liberdade e descompromisso.
Daí, o violento e persistente discurso contra seus valores e resiliência e as tentativas de encarcerá-la dentro de conceitos que a reduzem e de desvalorizá-la culturalmente como um comportamento, ou agrupamento, ultrapassado; ou de mantê-la sob ataque com o obejetivo de luindo, continuamente - ainda que lento-, os pilares de sua sustentação.
Este é, em verdade, um processo de autodestruição, pois, parafraseando o estimado Churchill digo que a família é a pior dos modelos humanos. Depois de todos os outros.
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César Oliveira - 03 de Fevereiro de 2017 | 17h 54
Ao que parece não é apenas entre o México e os EUA que há um muro. Aqui, entre o cidadão e os políticos há uma muralha, ou abismo, se preferir. Michel Temer, o interino, formou uma equipe econômica de respeito, melhorou a segurança para investimento, e tem proposto as reformas da educação, previdência, e o teto de controle de gastos, que são medidas duras, mas necessárias.
O preço, no entanto, que cobra está ficando muito caro. Sua leniência com os amigos suspeitos de corrupção causa calafrios. Já foi assim com Jucá- afastado e renomeado-, Geddel, que ficou ao sereno onde Moro costuma atuar; Padilha, citado na Lava-Jato e Moreira Franco, já citado em mais de uma das investigações da PF.
Agora, Temer, recriou 2 Ministérios quando tinha prometido enxugar a máquina, algo que causa ira na população. Um deles - sejamos sinceros- serve apenas para dar status de Ministro ao Angorá, ops, Moreira Franco, seu dileto amigo. Ao contrário do famoso episódio de José Serra, quando era governador de São Paulo, não se pode dizer que Temer deixe um companheiro ferido na estrada.
Quanto mais poderoso se sente o interino mais se aproxima da velha prática fisiologista, inchando a máquina adminsitrativa, sem prestar contas aos desejos do cidadão que viabilizaram sua subida ao poder central. Temer se aproxima, do pior do estilo do PMDB. Ao dar um passo para frente dá dois para trás.