Uma das peças de teatro mais conhecidas de Ibsen é Um
Inimigo do Povo - tive a oportunidade de ver em duas montagens diferentes- e
que já teve seu argumento central aproveitado em diversos textos adaptados. Um
Inimigo do Povo retrata o conflito existente entre o individual e o coletivo,
mostrando de que forma a população de uma pequena cidade-balneário da Noruega
transforma o médico local de cidadão honrado em um inimigo do povo porque ele
duvidava dos poderes e da qualidade das águas que serviam os banhos públicos,
fonte de riqueza para toda a cidade.
O dinheiro fácil-e o poder que ele gera- enraíza na Sociedade,
infiltra-se como erva daninha em suas instituições e vai corroendo, corrompendo
todo tecido social, através do ganho sem esforço. Ele vicia, rebaixa consciências,
gerando o apoio de todos aqueles que se beneficiam direta ou indiretamente-
legal ou ilegalmente- do processo de corrupção.
O exemplo mais direto disso é a reação de parte da banda
podre da Justiça, advogados, políticos, empresários corruptos, contra a
Lava-Jato e Moro. Digo sempre que apesar de grampeado nada surgiu nas conversas
de Moro que sugerisse corrupção. Não
conheço muitos outros nomes que seriam capazes de saírem ilesos após terem seus
telefones grampeados.
É possível discutir procedimentos da Operação Lava jato,
tentar aperfeiçoá-la, mas a destruição a que foi submetida – inclusive pelo PGR
Augusto Aras- é uma vergonha a todo pagador de impostos que deseja viver em um
país mais honesto. Moro mudou uma Justiça que durante 500 anos perseguiu
negros, pobres e putas, prendendo políticos, empresários devassos. Agora, ela
volta-se novamente para pretos, pobres e putas. E o brasileiro ainda acha que
ele é um inimigo do povo. Não chega a ser novidade, porque Ibsen já escreveu
sobre isso! Só os atores atuais é que são canastrões da pior qualidade!
Pesquisas apontam que até 22% do eleitorado não gostaria de votar no ex-condenado Lula ( do governo com propina na cada dos bilhões, como disse Obama), nem em Bolsonoro - aquele que não era coveiro na pandemia e abraçou o Centrão- o que é uma parcela significativa de eleitores. Ela começou a ser discutida para viabilizar Moro ( 8% das intenções de voto), mas ele foi rifado pela combinação de inexperiência e traições. No Podemos, porque nunca lhe deram as condições; na União Brasil, pela ação de ACM Neto e Ronaldo Caiado.
A inviabilidade contou com a perseguição esdrúxula movida pelo ministro Bruno Dantas do Tribunal de Contas ( que frequenta encontros com Lula) e o procurador Júlio Furtado, além da anulação das sentenças da lava-jato nos Tribunais ditos Superiores. O movimento ordenado e conjunto botaram Mora para escanteio, afinal, a pauta anti-corrupção não agrada a ninguém além dos brasileiros que tem seus impostos roubados diariamente. Agora resolveram indicar o nome de Simone Tebet e já se fala que Aécio Neves pode ser o vice, apesar de seus 8 processos no STF. Com essa âncora só lhe resta esperar a hora de afundar.
Melancólico país!
O presidente precisa parar com essa tentativa de desacreditar as instituições que ele não consegue aparelhar – como fez trocando delegados da PF em série, e colocando a PGR menor com Aras, o pequeno- e como tenta fazer com o STF e TSE ( aonde não conseguiu o controle). O que não exime o STF de seus pecados absurdos, nem o TSE de ser absolutamente transparente e não ensimesmado.
A retórica recheada de palavrões para atacar o sistema eleitoral, ameaça de golpe, é um abuso, um diversionismo de intolerância, que tenta incutir na parte fanática de sua plateia de extremistas um clima de beligerância, caso perca a eleição no voto. É, já, muito claro, o “ efeito Trump” em caso de derrota, nessa parcela de cidadãos cada vez mais armados, e mesmo em parcela das forças militares sujeitos por facilidades da própria formação a ações físicas.
Exigir fiscalização é extremamente salutar; criar clima de golpe e ameaças é um imenso desserviço. É não ter ideia e
responsabilidade sobre o que pode causar- aliás, quem foi expulso do Exército
por planejar um ataque com bomba em quartéis e sistema de abastecimento de agua
deve ter uma ideia muito particular sobre isso. Bolsonaro precisa se concentrar
em nos dar resposta sobre a inflação, o gás, o combustível, os juros, a fome, e
tantas outras questões, porque se assim fizer sequer precisará se preocupar com
urnas porque a eleição estará ganha.
A absurda volta
de Lula, ex-condenado e apontado pela Lava-Jato e delatores como gestor do maior projeto de corrupção da história desse
país- um governo com propinas na casa dos bilhões, segundo Obama- só
acontece pela devassidão moral e cúmplice que permeia os tribunais superiores
que fingem não terem sido devolvidos R$7 bilhões só a Petrobrás, mas não obriga,
pela repulsa que sentimos, a tolerarmos um país que se apequena em uma retórica
golpista de quartel. Há um limite muito claro entre crítica, cobrança e ameaça.
Essas veladas
ameaças de golpismo de Bolsonaro já encheram o saco!