O país estertora cerceado pela disputa do fim do mundo entre Lula, autor de um "governo com propina na casa dos bilhões" e Bolsonaro, com sua rachadinha, e aberrante desprezo às vítimas da pandemia, para a Presidência. Esse cenário, no entanto, é tudo que deseja os extremistas de ambos os lados, confiantes que o eleitorado terá de escolher aquele que lhe causa menos horror- e não o entusiamo de apontar o melhor. Por conta disso, jornalistas, analistas, torcedores, beneficiários, tratam de apontar não haver chance para a terceira via. Até que foi confirmada a candidatura de Sérgio Moro, ex-juiz que comandou a Lava-Jato e prendeu os maiores ladrões empresariais e políticos do país- um feito inédito em nossa história. Com surpreendente desenvoltura Moro tem respondido aos ataques de ambos os lados e sua candidatura tem apresentado crescimento, até porque parece estar se rodeando de bons conselheiros como Afonso Celso Pastore. As acusações de que Moro não é confiável porque teria traído Bolsonaro chegam a ser ridículas, afinal, foi o presidente que lhe ofereceu um Ministério da Justiça com porteira fechada e lhe entregou aderência ao Centrão, falta de esforço em aprovar a prisão em segunda instância, e nomeou o pequeno Aras para a Procuradoria da República com a missão de enterrar a Lava-Jato. O crescimento dos números iniciais das pesquisas mostrando que a candidatura Moro pode ser viável traz alerta ao demais concorrentes que apostam em serem eleitos por rejeição. Uma vergonha para essa nação. Aliás, se o eleitor tivesse juízo eliminaria os dois- Lula e Bolsonaro- do segundo turno. E teríamos, enfim, menos do mesmo.
A conduta de Bolsonaro na pandemia desestimulando o uso de vacina, retardando sua compra, assim como todas as suas declarações contra o isolamento e o uso de máscara, além de incentivo ao uso de remédios sem comprovação científica, resultaram em agravamento do número de mortos, sem dúvida, embora seja tolice e discurso político atribuir a ele os mais de 600 mil mortos. Por outro lado, sua falta de empatia com os mortos e abjetas afirmações sobre as famílias e suas vítimas situam-se no campo do horror pessoal.
O crime
de genocídio não se aplica ao caso e está
corretamente sendo retirado do relatório da CPI, no Congresso, para evitar o descredito. Como apontou o
jornal O Globo, em editorial: "Todas as definições do crime - a da convenção das
Nações Unidas sobre genocídio, subscrita pelo Brasil em dezembro de 1948, a da
lei 2.889 de outubro de 1956 e a do artigo 6º do Estatuto de Roma que criou
o Tribunal
Penal Internacional (TPI) - o caracterizam como uma
série de atos cometidos ‘com a intenção
de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso".
Decididamente não se pode atribuir a Bolsonaro as características que definem o
genocídio, embora se possa apontar culpa em outros crimes administrativos.
O genocídio é uma barbárie que precisa
ser combatida ferozmente e a utilização do termo precisa ser consistente e bem
fundamentada para evitar que o termo venha a perder sua força e impacto. O desejo de colocar uma
marca ruim no presidente não pode ser maior do que a correta interpretação dos
fatos. Dito isso, ressalto que nada diminui as responsabilidades do governo pelo
excesso de mortes na pandemia e isso já é o horror necessário.
Os avanços da
medicina constituem uma das mais brilhantes histórias de progresso de nossa
civilização. Partindo da observação, crendice, feiticismo, fé, mitologia,
chegamos a uma era de conhecimento genético, celular, molecular, extremamente
profundos, que permitiram revoluções no tratamento de doenças e a ampliação da
expectativa de vida. Decifrar o genoma, criar órgãos artificiais, produzir
vacinas que erradicaram doenças de letais, tornar os transplantes uma
alternativa segura, substituir o rim por uma máquina de diálise, dar a luz a um
bebê de proveta, fazer cirurgias robóticas, ou permitir a sobrevivência de um
recém nascido com 212 gramas- o peso de uma maçã- são exemplos dos milagres do
cotidiano já produzidos.
Desde que
Hipócrates mudou a história da arte médica, dando-lhe caráter científico e um
juramento ético, fizemos uma viagem incomparável pelo conhecimento em busca da
melhor evidência para o ato médico. Não
podemos negar, no entanto, as transgressões, violações motivadas pelo poder, dinheiro,
fraqueza moral. Estas falhas não são da
medicina, per si, mas da miríade
diversa que é o humano. Longe, no entanto, de ser a maioria. Ao contrário, é
uma minoria que merece a lei e o repúdio dos que tem dignidade
profissional.
Vivemos uma era
de desafios. A ampliação desenfreada de escolas, cursos em regime de feira
livre em países vizinhos, ausência de avaliação continuada que separe o joio do
trigo, trará consequências e riscos. Temos
outros desafios como estabelecer limites éticos a uma série de procedimentos surgidos
com o desenvolvimento da tecnologia e da biologia, e como fazer para que os avanços que salvam vidas não fiquem
restritos a uma parcela da população com maior poder econômico, tornando ainda
mais evidente e cruel nossas diferenças
sociais.
A recente e
devastadora pandemia tornou claro o papel transcendental do médico em um mundo
que perde fronteiras e que irá viver uma era de epidemias. A vitória, apesar de
tantas vidas perdidas, foi um ato magnífico da ciência, de coragem, de resposta
a um chamado de algo não palpável, mas real, que é o compromisso moral, ético,
humano, do médico, com a profissão e a vida alheia. Foi monumental e um dos
momentos mais dignos de nosso ofício.
Ao tempo que
reverencio os que lutaram- inclusive os que perderam a vida- reforço nossa
necessidade de qualificarmos o ensino técnico, de metodologia, e a exigência de
profissionalismo, que permeia nossa atividade.
Os médicos precisam ser maximamente eficientes e minimamente invasivos à
integridade física, econômica, e afetiva do paciente. Só assim poderemos honrar a imensa obra já
construída e continuar carregando nos ombros o universo gigante da medicina e
da vida humana.
Embora no pós-guerra a ideia do interesse coletivo tenha se tornado cada vez mais dominante não é livre de tensão o debate entre esse interesse coletivo e liberdade individual. Aliás, não custa lembrar que o indivíduo é parte do coletivo portanto todo confronto nessa fronteira gera alguma exclusão. Não é fácil encontrar a proporcionalidade que deve ter esse equilíbrio, nem se a mesma todo tempo e em todas as questões, evitando extremos que descambem na anarquia ou no autoritarismo do estado. A vacinação ilustra um exemplo dessa discussão.
O movimento antivacina, construído sobre o empirismo e a desconfiança não apresentou até o momento evidências científicas qualificadas que lhe dessem sustentação. Ao contrário, as vacinas representam o avanço científico que mais salvou vidas na história da humanidade, enquanto a não vacinação está permitindo o ressurgimento de mortes por doenças que estavam controladas como o sarampo, por exemplo. A liberdade individual, em seu extremo, levaria ao não uso do cinto de segurança, ao porte de arma sem controle, ausência de limite de velocidade, o fim da lei seca, as regras contra o tabagismo. Estas medidas só estão vigentes porque o interesse coletivo suplantou a liberdade individual.
Aliás, a vacinação já é obrigatória no Brasil pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. O problema é que a politização do processo turva a ciência e acende o emocional. De modo particular acho que as vacinas possuem maior ou menor benefício a depender do grupo de pessoas e da doença que está sendo enfrentada. A obrigatoriedade deveria ser variável. Há patologias que não afetam o coletivo e que apresentam outras medidas de proteção como o HPV, mas quando uma situação epidêmica se impõe e seu controle torna necessário imunizar determinado percentual da população para que o vírus se torne inativo e seja contido ele deve ter ação incisiva das autoridades que podem variar desde premiação a controle vacinal.
Devemos nos
preparar para um futuro em que essas epidemias se tornem mais frequentes e,
provavelmente, mais letais, não restando outro recurso senão a vacinação obrigatória
como medida extrema para a sobrevivência.