Sou um órfão da feira livre feirense. Guardo na memória os
tempos em que vinha da roça, às segundas-feiras, acompanhando minha mãe a
pechinchar, com seu bocapiu, entre as rumas de mercadorias numa das mais
afamadas feiras do país. Se "Paris bem vale uma missa" (Paris vaut
bien une messe), como disse Henrique IV para ser coroado rei da França, a
banana-real e um refrigerante na lanchonete da Galeria Caroá bem valiam a
correria das ruas com ela. Quando retornei da minha formação acadêmica, no
final dos anos oitenta, a grande feira já tinha sido extinta, em janeiro de
1977.
Desde então, passo diariamente pela Avenida Marechal Deodoro
— antiga Rua do Meio, que já abrigou até estádio de futebol. O saudoso
jornalista Adilson Simas costumava dizer que a Marechal era o "rabo da
lagartixa", a herança da feira livre que permaneceu. Nesses quase quarenta
anos em que circulo por ela indo para o trabalho, marcando o começo e o fim do
meu dia, enxergo uma via que nunca deixou de ser desarrumada e visualmente
hostil. O calçamento mudou, mas o canteiro central, planejado para ter árvores,
teve o jardim arrancado e acabou coberto com tijolos intertravados.
Acima do chão, o pandemônio de fios, sem ordem e sem lei,
enche o céu de feiura — há pouco tempo, um carro incendiou-se após um
curto-circuito na rede. Nas calçadas, a feira resiste em barracas improvisadas,
onde os feirantes seguem sua dura labuta, ganhando o pão entre o suor e a
desordem. As estruturas prometidas para organizar o comércio — atrasadas há
décadas — aguardam a liberação efetiva.
Não escrevo, de forma alguma, contra a existência de feiras.
Elas existem nas maiores e mais famosas cidades do mundo e dão um ar de
humanidade ao frio do espaço urbano. O que as outras têm, e que nos falta, é o
ordenamento e, acima de tudo, a higiene. Quando saio à noite, a rua está cheia
de restos de lixo; quando retorno pela manhã, o lixo acumulado e a falta de
asseio adequado permanecem lá. É difícil crer que alguém fiscalize o trabalho
da empresa de limpeza urbana: o serviço é ligeiro, superficial e descuidado, o
que só serve para degradar o ambiente e afastar clientes.
O cenário é incompatível com o centro da segunda maior cidade do estado e expõe a lentidão de intervenção do poder público. Afinal, quatro décadas é tempo demais para se mudar a cara de uma única rua. É evidente que a Marechal precisa de uma revisão completa no trânsito, na fiação aérea e na padronização das barracas, containers para descarte de lixo, além de treinamento para os feirantes. Contudo, este texto é apenas para cobrar o elementar: limpeza, limpeza e limpeza. Um direito que os trabalhadores da feira merecem e que o respeito urbano aos cidadãos exige.
Longe deste colunista comentar a guerra com o conhecimento,
a agudeza e o refinamento textual do colega Wellington Freire — que realiza,
sem dúvida, a melhor cobertura do conflito na imprensa brasileira. No entanto,
é impossível não manifestar uma certa emoção epopeica ao observar os últimos
desdobramentos da invasão da Ucrânia pelo ditador Vladimir Putin. Em 480
a.C., Leônidas, rei de Esparta, comandou seu pequeno contingente de 300
soldados contra as hordas de Xerxes na Batalha das Termópilas. À exigência de
rendição — "Entrega tuas armas!" —, Leônidas devolveu o lacônico e
imortal: "Vem buscá-las!". Reza a lenda que, quando alertado de que
as flechas persas seriam tantas que "cobririam o Sol", a resposta foi
o ápice do estoicismo militar: "Melhor, combateremos à sombra".
A História, sempre caprichosa, encontrou um eco dessa
bravura em 24 de fevereiro de 2022. Quando Washington ofereceu uma rota de fuga
ao presidente Volodymyr Zelensky, após a invasão russa em larga escala, ele não
buscou o exílio seguro; buscou o destino. Sua resposta — "A luta está
aqui. Preciso de munição, não de carona" — tornou-se o marco zero da
resistência ucraniana. Quatro anos após o início da invasão, o que deveria ser
uma marcha triunfal de três dias transformou-se em um atoleiro existencial para
o Kremlin. A promessa de uma anexação rápida colapsou e a guerra agora ronda
Moscou através de drones, enquanto a insatisfação interna russa torna-se
inegável. Hoje, os dados são sombrios para o agressor: estimativas apontam que
as baixas russas ultrapassaram a marca de 1,2 milhão de vítimas, com 300.000
mil mortos, um preço de sangue que supera em muito o desgaste ucraniano.
No último ano, a vulnerabilidade russa ficou exposta. Putin
viu-se obrigado a recorrer a soldados da Coreia do Norte e protagonizou, no
último dia 9 de maio, o desfile da vitória mais pífio de sua história, com um
arsenal encolhido e o temor de ataques aéreos. Enquanto o ganho territorial
russo estagnou em menos de 1% no último período, a retomada ucraniana ganha
contornos de resiliência histórica. Zelensky enfrentou mais do que mísseis;
enfrentou o cinismo de figuras como Donald Trump, que chegou a humilhá-lo e
sugerir a entrega de territórios - em busca de um Nobel da Paz. Muitos
apontaram o líder ucraniano como um louco que sacrificaria seu povo,
esquecendo-se de que a dignidade de uma nação não se negocia.
A resistência do ex-comediante obrigou o Ocidente a
despertar para a gravidade de uma possível vitória russa, e seu gesto corajoso
universalizou uma guerra que muitos queriam ver apenas como local. De um modo
ou de outro, Putin já perdeu. Ele perdeu a influência, a modernidade, a
narrativa da invencibilidade, foi
condenado como criminoso de guerra e
revelou os pés de barro do país em uma guerra não atômica.
O tempo e a coragem ucraniana cobraram
seu preço ao invasor, agindo como um inverno russo às avessas que agora
congela as ambições imperiais do Kremlin. Ainda não sabemos o fim desta jornada
monumental, mas uma coisa é certa: assim como os espartanos, Zelensky e o povo
ucraniano decidiram que, se as nuvens do imperialismo cobrirem o céu, eles
simplesmente combaterão à sombra.
A recente passagem do governador Jerônimo Rodrigues (PT) por Feira de Santana
marcou uma ruptura com as visitas anteriores. Diferente de outras ocasiões, o governador
demonstrou "musculatura" política ao aliar a entrega de obras ao
anúncio de novos investimentos, sinalizando uma mudança drástica de
comportamento. Se antes existia um "namoro" — ou ao menos um jogo de
sedução calcado no possível, mas improvável, acordo com José Ronaldo — desta
vez Jerônimo fincou uma estaca no reduto eleitoral mais disputado da Bahia.
Feira de Santana, sob a influência persistente do “ronaldoismo”,
tornou-se o epicentro da competição entre o grupo de ACM Neto e a base
governista. Com o "jogo jogado", Jerônimo abandonou a neutralidade —
aquela que, como se diz, quando não mata, aleija — e assumiu o papel de
competidor direto. Como bem observou o jornalista Valdomiro Silva, esta foi a
visita mais robusta e significativa do governador à cidade.
O componente pessoal é o diferencial: ao contrário de Jaques
Wagner ou Rui Costa, Jerônimo possui raízes locais como professor da UEFS. Essa
ligação biográfica torna a eleição atual decisiva para que ele consolide sua
história na cidade, buscando resgatar uma dívida significativa com um município
que, historicamente, recebeu menos do que sua importância exigia, na maioria
dos governos.
Em termos numéricos, a evolução é clara. Se em 2006 e 2010
Jaques Wagner ficou atrás de Paulo Souto, e em 2018 Rui Costa foi batido por
José Ronaldo (55,42% contra 35,84%), em 2022 Jerônimo reduziu a diferença para
apenas 1,6 ponto percentual contra ACM Neto (41,21% a 42,87%).
A mudança de postura,
linguagem e atitude durante os três dias de permanência na cidade sugere um
divisor de águas. Para o governo, a estratégia é clara: não basta mais a
relação institucional; é hora de a "onça beber água" e disputar a
hegemonia do Portal do Sertão no campo das realizações apostando na virada na
eleição de 2026.
Esta coluna vem cobrando insistentemente a instalação da Delegacia da Polícia Federal em Feira de Santana. As razões pelas quais precisamos ampliar o combate ao crime na região são evidentes, claras e assustadoras. A expansão das mais variadas modalidades de delitos — da corrupção política ao tráfico de drogas — na região é apavorante.
A delegacia foi prometida por Flávio Dino, então ministro da Justiça, em outubro de 2023, mas a autorização só foi publicada no Diário Oficial da União em julho de 2025. O deputado Zé Neto (PT) anunciou que a unidade será instalada, afirmando ter alocado recursos via emenda parlamentar para aquisição de viaturas. O governador Jerônimo Rodrigues, em sua recente visita a Feira de Santana, anunciou a destinação de uma área ao lado do Hospital Colônia Lopes Rodrigues para a construção da sede.
A notícia é animadora e a sociedade espera que este anúncio converta-se em ação concreta, com velocidade superior ao vácuo temporal entre a promessa inicial e a publicação oficial. A população, que carece de proteção, tem urgência; o crime é veloz e o Estado precisa responder com agilidade.
A mobilidade é uma questão central nas cidades e uma das que mais causam irritação e estresse aos habitantes. O problema não se restringe aos engarrafamentos, mas estende-se à qualidade das vias, aos buracos, às bocas de lobo com desníveis e à ausência de sinalização e manutenção. Nesse contexto, a Avenida Artêmia Pires destaca-se como um registro imemorial da omissão do poder municipal — cenário que, felizmente, será corrigido (ao menos em grande parte) pela Prefeitura Municipal de Feira de Santana (PMFS). Ao iniciar a duplicação possível da via, a gestão assume, enfim, uma postura acertada. A intervenção era urgente, visto que o fluxo de veículos tornou-se insustentável diante da explosão de condomínios na região. No entanto, como a expansão imobiliária no vetor leste da cidade é um fenômeno de longo prazo, o planejamento urbano não pode ser reativo; ele precisa antecipar o crescimento futuro, projetando conexões estratégicas, especialmente com a Avenida Nóide Cerqueira.