Há um mês, na madrugada de 28 de fevereiro de 2026, caíam sobre Teerã os primeiros bombardeios de uma guerra que seus próprios arquitetos prometeram ser rápida, cirúrgica e decisiva. Trinta dias depois, o cenário que se descortina do Golfo Pérsico à costa iemenita é o avesso da celebração: o Estreito de Ormuz segue obstruído, os preços do petróleo dançam conforme explosões e, no último sábado, os rebeldes houthis, aliados do Irã, lançaram mísseis contra Israel, abrindo uma nova frente que ninguém, nos primeiros dias do conflito, ousava prognosticar. E, no entanto, o presidente Donald Trump declarou vitória. Não uma vez, não duas, mas pelo menos uma dúzia de vezes em trinta dias.
“O Irã está morto”, escreveu ele em sua rede social em 22 de março. “Dizimamos completamente o Irã”, repetiu uma semana antes. “Eliminamos a liderança duas vezes”, gabou-se em 11 de março, referindo-se aos ataques que mataram o líder supremo Ali Khamenei e feriram seu sucessor, Mojtaba. No dia 26, já na terceira semana de conflito, Trump afirmou que o Irã “está implorando por um acordo, enquanto a Guarda Revolucionária anunciava novos ataques a fundições no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos. A pergunta que atravessa as entrelinhas de cada uma dessas declarações é também a que uma coluna como esta precisa ousar formular: se isso é vitória, como seria a derrota?
O que os comunicados triunfais da Casa Branca tentam ocultar sob uma catarata de adjetivos (“perdedor”, “destruído”, “aniquilado”) é uma distinção fundamental, daquelas que os manuais de estratégia militar insistem em ensinar e os manuais de marketing político insistem em esquecer: é possível destruir um regime sem derrotar um Estado. Trump e seus generais podem, com razão, apontar para um saldo impressionante de alvos atingidos, mais de sete mil, segundo o próprio presidente. A liderança iraniana sofreu uma decapitação sem precedentes. A Marinha e a Força Aérea da República Islâmica, ao que tudo indica, foram neutralizadas como forças convencionais. Do ponto de vista tático, a coalizão liderada pelos Estados Unidos obteve conquistas reais e mensuráveis.
O Irã de hoje assemelha-se a um ouriço ferido. Perdeu espinhos, sangra, não consegue mais avançar. Mas ainda tem fôlego para se enrolar sobre si mesmo e espetar quem dele se aproxima. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde escoava um quinto do petróleo mundial, não é um ato de força, mas um ato de desespero calculado. É a afirmação de que, se não pode vencer, pode ao menos garantir que ninguém mais vença. E, na economia global interconectada do século XXI, essa é uma forma peculiarmente eficaz de poder.
Há, no entanto, um elemento que a retórica triunfalista de Trump insiste em ignorar: a geografia não se rende a tuítes. Quando os houthis lançaram mísseis contra Israel no último sábado, não estavam apenas abrindo uma nova frente de combate. Estavam sinalizando que o Irã ainda comanda uma constelação de atores não estatais, no Iêmen, no Líbano, no Iraque, na Síria, capazes de estender o conflito no tempo e no espaço. O estreito de Bab el-Mandeb, na costa iemenita, é o irmão gêmeo de Ormuz: seu bloqueio dobraria a aposta energética do Irã e transformaria uma crise regional em um colapso logístico global.
E é justamente aí que a “vitória” anunciada por Trump revela sua face mais frágil. O presidente americano fala como se a guerra fosse um jogo de xadrez onde se captura a rainha adversária e o rei se rende. Mas o Irã aprendeu, nas oito décadas de sua existência moderna, a jogar um jogo diferente: o do paciência, da sangria lenta, da transformação de cada derrota militar em uma vitória narrativa.
A prova mais eloquente dessa assimetria é o silêncio de Teerã. Enquanto Trump fala, o Irã age. Enquanto Trump anuncia rendição, o Irã fecha estreitos. Enquanto Trump declara o inimigo “morto”, os houthis acendem novos rastilhos. A guerra, neste primeiro mês, não é um duelo de exércitos, mas um duelo de temporalidades: a velocidade impaciente do Ocidente contra a lentidão estoica de uma teocracia que já sobreviveu a oito presidentes americanos e não teme esperar pelo nono.
Rei do Épiro, no século III a.C., Pirro derrotou os romanos em duas batalhas sangrentas e viu seu exército tão dilacerado que, segundo Plutarco, teria dito: “Outra vitória como esta e estarei perdido”.A guerra de Trump contra o Irã ainda não chegou a esse extremo. As baixas americanas, 13 mortos e mais de 300 feridos até o momento, são, pelos padrões históricos, modestas. O poderio militar dos EUA permanece intocado. Mas a questão que Pirro legou à história não é sobre baixas imediatas: é sobre sustentabilidade, sobre custo de oportunidade, sobre a diferença entre ganhar uma batalha e vencer uma guerra.
Trump pode, sim, ter “vencido” a fase convencional do conflito. Pode ter demonstrado ao mundo que nenhuma defesa aérea iraniana resiste a um bombardeio americano em escala plena. Pode ter eliminado a velha guarda da Revolução Islâmica. Pode até, como ele próprio insiste, ter forçado o novo regime em Teerã a sinalizar aberturas negociadoras.
Mas o preço dessa vitória tática está sendo cobrado em uma moeda que o presidente americano parece disposto a ignorar: a moeda da imprevisibilidade estratégica. O estreito de Ormuz não se reabriu. A economia global está em choque. A China e a Europa, principais consumidores do petróleo da região, assistem alarmadas a um conflito que foge ao seu controle. E, o mais grave para os interesses americanos de longo prazo, a imagem de Washington como garantidor da estabilidade global já combalida desde o Afeganistão, sofre mais um golpe.
O que há de preocupante nas declarações de Trump não é o otimismo, todo comandante em tempo de guerra tem o direito, talvez o dever, de inflamar os ânimos de seus soldados e de sua nação. O que há de preocupante é a substituição da realidade pela comemoração. Anunciar vitória antes de o adversário depor as armas não é liderança; é ilusionismo. E ilusionismo, em matéria de guerra, cobra seu preço em sangue e credibilidade.
Enquanto essa pergunta não for respondida, o melhor conselho para o leitor é o mesmo que os antigos gregos davam aos marinheiros que se aproximavam de costas desconhecidas: admire as ondas, mas mantenha os remos na água. A guerra de um mês ainda não revelou seu vencedor. Apenas revelou, com clareza brutal, a distância entre anunciar a vitória e conquistá-la.