Se ainda havia algum resquício de 2022, da parte de Zé Ronaldo, em sua aliança e amizade com o correligionário ACM Neto - quando o ex-prefeito de Salvador, candidato ao Governo do Estado, frustrou o desejo do atual prefeito de Feira de Santana de ser o seu vice naquele pleito - este se desintegrou completamente nas últimas semanas. O ato público de lançamento da campanha da chapa de oposição para disputar o Palácio de Ondina, na noite de ontem no apertado teatro da CDL, mostrou, sem deixar qualquer margem para dúvidas, que os dois líderes estão muito bem entrosados, talvez, como jamais estiveram um dia.
Demonstrando a sua conhecida religiosidade, Ronaldo disse que Deus foi quem o levou a "este momento histórico". O prefeito de quinto mandato na maior cidade do interior da Bahia sorriu, gritou e emocionou-se. Quem o conhece bem sabe que é exatamente esta a sua postura, quando deseja sinalizar comprometimento a uma causa. Disse olhar para trás "sorridente, sem mágoa, sem ressentimento".
Fez compromisso público de "total dedicação" à chapa anunciada: "Estou pra trabalhar. Eu gosto é de rua, de andar, de gente e de olho no olho. Não existe cansaço na minha história, é algo que não me vence. Vou me colocar à disposição". Registrou que, na condição de chefe do Poder Executivo - diferentemente de 2022, quando estava sem mandato - não pode fazer campanha de segunda a domingo, "mas um dia no meio da semana e todo final de semana, sim".
Sobre o seu candidato a governador, disse que "Neto", como gosta de chamá-lo, "sofreu e apanhou", há quatro anos, com a derrota em sua primeira tentativa de ser governador: "Sabemos o tamanho da responsabilidade e o aprendizado que ficou. Hoje, ele está muito mais pronto para o cargo, amadureceu, cresceu como político, é um homem com a cabeça 100 por cento preparada para comandar a Bahia".
O prefeito aproveitou a ocasião para falar sobre "as muitas especulações desses dois anos", especialmente em razão de sua proximidade com o governador Jerônimo Rodrigues, bastante propalada na imprensa. Muito se falou - e Ronaldo de certa forma permitiu, ao deixar para anunciar a decisão de quem iria apoiar para este final de março - que ele poderia vir a defender a reeleição do petista ou, ao menos, cruzar os braços, como represália a ACM Neto por não ter sido o seu vice na eleição anterior.
Disse que foi "muito procurado", recebeu convites e ouviu "propostas tentadoras, em longas conversas". Recentemente, de forma mais direta, anunciou que fora convidado para ser candidato a vice-governador pelos dois grupos protagonistas do processo. No entanto, optou por "manter o compromisso, a história e, principalmente a coerência, com tudo que construí em minha vida".
Prevaleceram, segundo ele, a "confiança que recebi e a palavra que sempre mantive com a minha gente, quando afirmei que não renunciaria". Avaliou que, se deixasse a gestão estaria "traindo o povo e a minha consciência". Para Zé Ronaldo, quem tem lado "não muda por conveniência e quem construiu uma caminhada não abandona no meio do caminho". Arrematou com a frase de efeito "estou aqui porque conheço e confio". É muito simples de entender a entrega de Ronaldo à campanha de ACM Neto.
A guerra pelo voto não permite a um político de sua envergadura anunciar aliança que não se confirmará. É prejuízo certo em todos os sentidos. Se o adversário vence, não lhe será benevolente pela imparcialidade demonstrada. Falta de esforço é algo absolutamente visível, em uma batalha como essa. Caso o candidato apoiado de forma superficial ganhe a disputa, não lhe reconhecerá, posto que é de muito fácil percepção uma campanha "fake", especialmente quando se trata de aliado de importância estratégica como Ronaldo.