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  • Feira de Santana, quarta, 01 de abril de 2026

Wellington Freire

O Fantasma do general Douglas MacArthur: ego, guerra e desmedida

01 de Abril de 2026 | 09h 03
O Fantasma do general  Douglas MacArthur: ego, guerra e desmedida

Há uma figura que a modernidade estratégica julgava superada: o comandante que decide pela pulsação do instante, não pela arquitetura do planejamento. As recentes declarações de Donald Trump, ora prometendo o fim da guerra “em duas ou três semanas”, ora ameaçando escaladas devastadoras, sugerem o retorno desse tipo: o líder que transforma a guerra em extensão de seu próprio temperamento.

A tradição militar do século XX tentou justamente domesticar essa figura. De Carl von Clausewitz ao general Dwight D. Eisenhower, consolidou-se a ideia de que a guerra é menos um ato de gênio súbito e mais um exercício de disciplina intelectual. Eisenhower, que coordenou a maior operação anfíbia da história, insistia: planos podem falhar, mas o planejamento, como processo, é insubstituível. Ele cria não certezas, mas estruturas de adaptação.

Trump parece operar no registro oposto. Sua linguagem estratégica é episódica, marcada por oscilações abruptas e por uma retórica que antecipa a vitória antes de defini-la. Nesse sentido, aproxima-se menos do estrategista moderno e mais do comandante pré-moderno, aquele cuja autoridade deriva do carisma, não da coerência doutrinária.

A analogia com o ex-presidente amdericano Richard Nixon ilumina esse ponto. Nixon também cultivou a imprevisibilidade, a chamada teoria do louco,  como instrumento estratégico. Mas, ao contrário de Trump, sua aparente irracionalidade era, em larga medida, calculada. Tratava-se de uma simulação controlada, inscrita num arcabouço de Guerra Fria, com objetivos definidos. Em Trump, a impressão é distinta: a oscilação não parece instrumento, parece método.

O contraste torna-se mais nítido quando evocamos Winston Churchill. Churchill também acreditava na força da palavra, na construção de uma realidade por meio da retórica. Suas frases eram deliberadamente hiperbólicas, quase teatrais. Contudo, essa teatralidade servia a um núcleo estratégico consistente: a sobrevivência britânica, a mobilização total, a resistência prolongada. A retórica, ali, não substituía o planejamento, amplificava-o.

Trump, ao contrário, frequentemente parece prisioneiro de sua própria linguagem. A frase não é instrumento de direção; é explosão momentânea. Daí a recorrente contradição: o que hoje é ameaça absoluta, amanhã é relativizado; o que ontem era vitória, hoje exige nova escalada. Não há, ao que tudo indica, um princípio organizador que submeta a retórica, apenas a sucessão de impulsos que a produz.

Se há um paralelo histórico mais inquietante, ele talvez esteja no general Douglas MacArthur. Como MacArthur, Trump manifesta uma confiança quase ilimitada na própria intuição e uma tendência à personalização extrema da guerra. MacArthur, durante a Guerra da Coreia, avançou para além dos limites estratégicos prudentes, convencido de sua leitura singular do conflito, um gesto que levou a um choque direto com o poder político e a um risco real de escalada global. A egolatria, nesse caso, não era apenas traço de personalidade; era fator operacional.

O problema desse modelo não é apenas moral ou psicológico — é estrutural. A guerra moderna, sobretudo contra um adversário como o Irã, exige coordenação multinível, leitura de longo prazo e sensibilidade às variáveis indiretas: economia global, fluxos energéticos, alianças regionais. Trata-se de um sistema, não de um palco. Substituir o planejamento por impulsos é, nesse contexto, reduzir a complexidade à escala do indivíduo,  um gesto que invariavelmente produz distorções.

A história oferece exemplos reiterados desse erro. Em 1812, Napoleão Bonaparte acreditou que sua intuição estratégica bastaria para dobrar a Rússia, ignorando logística, clima e profundidade territorial. O resultado foi a catástrofe. A lição permanece: quando o comando se torna expressão da vontade pessoal, a realidade tende a responder com brutalidade.

No limite, o que está em jogo é a própria definição de racionalidade estratégica. Churchill subordinava o verbo à razão; Eisenhower subordinava a ação ao processo; Nixon instrumentalizava a irracionalidade dentro de um cálculo. Trump, porém, parece operar num regime em que o impulso precede o pensamento  e, por vezes, o substitui.

No limite, o risco não é apenas de erro  é de regressão histórica. Quando a condução da guerra se desprende do planejamento e se ancora no humor do líder, o que se dissolve não é apenas a estratégia, mas a própria racionalidade do poder. Ao contrário de Winston Churchill ou Dwight D. Eisenhower, que submeteram o ímpeto à disciplina, Donald Trump parece inverter a equação: é a realidade que deve se ajustar ao seu impulso. Esse modelo não apenas aumenta a probabilidade de erro  ele a institucionaliza. E, em guerras sistêmicas, onde cada decisão reverbera em cadeias globais de consequências, governar pela emoção não é um estilo: é um fator de instabilidade estrutural. A história não costuma ser indulgente com líderes que confundem vontade com estratégia; ela os transforma, cedo ou tarde, em exemplos a não serem seguidos.




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