Durante parte do atual mandato o presidente Lula (PT) foi considerado “cachorro morto”, visto como provável derrotado nas eleições deste 2026; em meados do ano passado, porém, o tarifaço do presidente norte-americano Donald Trump e as sucessivas escorregadas da extrema-direita – sobretudo da família Bolsonaro – reconfiguraram o tabuleiro político, e Lula, subitamente, converteu-se em franco favorito à reeleição. A oposição, então, estava catatônica.
Diversas pesquisas divulgadas nas últimas semanas, porém, desmentem as ilusões de vitória fácil de um lado e do outro. Tudo indica que o pleito será duríssimo, e a vitória, apertada. Quem vai vencer, afinal? Apontava-se Lula como franco favorito, até porque a oposição não definia seu nome ou sinalizava para candidaturas natimortas.
Mas, depois que Jair Bolsonaro – o “mito” – ungiu seu filho Flávio Bolsonaro como pré-candidato, este rapidamente subiu nas pesquisas e, indicam alguns levantamentos, está emparelhado com Lula. Mais ou menos semelhantes, os números indicam uma ascensão acelerada do atual senador, o que surpreendeu muita gente.
A surpresa – com o perdão da expressão - é surpreendente. Lula, de fato, arrumou a economia, retomou políticas exitosas, normalizou relações políticas e reposicionou o Brasil no cenário internacional. Na avaliação tradicional, os bons resultados credenciariam o atual presidente à reeleição, com sobras. Sobretudo em relação à economia.
É verdade. O problema é que os antigos parâmetros já não explicam tão bem a realidade, que mudou muito. Frustrações, radicalização política, alienação ideológica e a emergência da agenda de costumes cristalizaram posições à direita e, no Brasil, esta cristalização, visível na última década, não se fragmentou. A oposição a Lula e ao petê é monolítica em determinados segmentos da sociedade.
Esta cristalização à direita, a propósito, mobiliza boa parte do eleitorado, conforme atestam as pesquisas. Quem esperava que o cenário mudasse a partir de 2023, com a dispersão do engajamento, se enganou. Seguirá enganado quem, até outubro, insistir no juízo de que a reeleição de Lula será um passeio, uma vitória garantida.
Acima, apontou-se que o efeito Trump e as derrapadas dos Bolsonaros reavivaram Lula como candidato; mais recentemente, deslizes do governo e do petê, alimentados por certa soberba, reequilibraram o jogo em favor da oposição. Jogando parado, Flávio Bolsonaro foi beneficiado, entre outros vacilos, até por uma inoportuna homenagem a Lula por uma escola de samba do Rio de Janeiro.
O fato é que nada está decidido e é bom colocar as barbas encanecidas de molho...
Numa de suas crônicas mais líricas – com o perdão da redundância – Rubem Braga narra as desventuras do poeta Carlos Drummond de Andrade com a falta d’água em sua casa, na rua Joaquim Nabuco, em Ipanema. Com humor e ironia, o cronista menciona as reclamações dos moradores, a vizinhança ilustre – o então presidente Café Filho morava lá também – e os esforços infrutíferos do poeta para dispor do líquido, como a instalação de uma bomba.
Como o problema continuava, o Velho Braga resolveu encaminhar, arrematando o texto, um pedido ao prefeito carioca: “Se a sua intenção é castigar o presidente Café Filho pelo fato de havê-lo nomeado prefeito desta bagunça e por isto não lhe dá água, tudo bem; mas este castigo envolve muitas outras pessoas inocentes da rua Joaquim Nabuco, inclusive um grande poeta que esta cidade deveria respeitar e honrar, e não perturbar, empobrecer, irritar e deprimir, como está fazendo”.
Não conheço nenhum poeta ilustre, nem estou às voltas com falta d’água, mas resolvi copiar o método do grande cronista para resolver junto à prefeitura um problema bem mais simples – é o que imagino. Trata-se do botão do dispositivo que aciona o sinal vermelho do semáforo na Avenida Maria Quitéria, na altura de uma loja de veículos que fica defronte à Associação Cristã Feminina.
Alguém vandalizou o dispositivo, arrancando o botão. Quem vai atravessar ali, sofre: os carros avançam, velozes, e raramente, surge uma chance segura de atravessar; o jeito então é torcer para que alguém acione o dispositivo do outro lado da avenida – ainda não quebraram o que há lá – para cruzar a via em segurança.
O trecho é movimentado e, por ali, circulam crianças, adolescentes, idosos, além de gente que dispõe de satisfatórias condições físicas, mas que não se arrisca a atravessar desafiando os automóveis que descem desembestados do viaduto da Fraga Maia. Até um cachorro peludo, encardido – e já manco – impacientava-se ontem à tarde, tentando a travessia. Acionei o dispositivo e ele, calmamente, atravessou na faixa, para espanto de uma motociclista que passava no momento.
Enfim, peço coisa pouca e o interesse é coletivo. A escola que funciona na Associação Cristã Feminina está em reformas, mas mesmo assim passam por lá crianças e idosos e o sufoco tem sido grande. Nem vou reivindicar a pintura da faixa de pedestres, porque li notícias sobre as dificuldades.
É isso. Fico no aguardo do reparo e agradeço desde já.
A chamada grande imprensa já vaticinou que segurança pública será o grande tema das eleições de 2026. É o que mais preocupa os brasileiros, repete-se à exaustão. Ato contínuo, afirma-se que o tema é uma das fragilidades do presidente Lula (PT). Até aqui, pelo menos, ninguém afirmou ainda que Flávio Bolsonaro (PL) – o filho do “mito” – é o mais credenciado a apresentar soluções. Mas – imagino – isso não tardará. Não, não se deve rir porque não se trata de piada.
Enquanto isso, no Brasil real, parte da população se vê às voltas com diversos problemas, mas particularmente com um que cresceu assustadoramente nos últimos anos: o domínio territorial imposto por milícias e facções. A tragédia aflige atualmente sabe Deus quantos milhões de brasileiros – os números são imprecisos – em todas as regiões do País e em todas as maiores cidades.
Em favelas e subúrbios as leis impostas pela criminalidade são draconianas: além dos frequentes tiroteios e mortes, moradores e comerciantes pagam taxas por “segurança”, cobra-se pelo acesso à Internet, vigoram monopólios na venda de água e botijões de gás e o transporte de passageiros – por motos e vans – também implica na cobrança de taxas.
Quem vende imóvel também é forçado a pagar um “imposto” para os criminosos. Em muitos lugares, o crime já exerce o monopólio também na oferta de produtos – quase sempre oriundos de furtos e roubos de carga – para o comércio local. Ninguém escapa dos tentáculos do crime: quem não se sujeita e escapa com vida, é felizardo. É incontável o número de vítimas dos “tribunais do crime”.
Como os brasileiros podem escapar desta? É uma pergunta difícil, que envolve respostas complexas. Os mais lúcidos já perceberam que as infindáveis incursões que deixam corpos estendidos no chão, por si mesmas, não resolvem. É preciso muito mais que o braço armado do Estado. Só que, no momento, pouco se discute isso. Menos ainda, quanto pode custar.
Esta é uma questão central: quanto custaria, para o Brasil, livrar-se das milícias e facções, ou, pelo menos, reduzir drasticamente seu poderio? Como não se sabe o que fazer, sabe-se menos ainda quanto custaria. É um desafio imenso, em grande medida desanimador. Talvez por isso aborde-se pouco a questão e se celebre, com êxtase delirante, carnificinas como a que aconteceu ano passado no Rio de Janeiro.
O controverso projeto de Lei Antifacção, aprovado ontem no Congresso, segue a mesma toada. É necessário mais, deixando-se as paixões políticas de lado e, com elas, muitos preconceitos. Também é necessário ferir muitos interesses escusos, solidamente enraizados. Mas não parece haver disposição, no Brasil, para enfrentar a questão em toda a sua complexidade.
O fato é que o cenário é péssimo para quem vive subjugado pelo crime, mas também para o País como um todo, é bom não esquecer.
O terreno tinha cerca de dois metros de largura. Construção inacabada: à frente, a caixa de antigo relógio de energia, encaixada numa coluna cimentada de blocos. No interior, um caminho estreito ladeado por restos de construção, ervas daninhas e modestas touceiras de capim, que findava dois metros adiante. Chegava-se, por fim, ao cômodo aberto à frente, mas coberto por uma laje. Nele havia mais restos de construção, paredes manchadas e um abertura ao fundo, vedada por tábuas.
Era na Rua Arivaldo de Carvalho, no começo do Sobradinho. Por ali, naquela época – era 1987 - predominavam as residências, solenes algumas, acanhadas outras, construídas décadas antes. Nos quintais grandes, muitas árvores frutíferas – manga, goiaba, mamão, pinha – e pássaros multicoloridos que animavam manhãs e tardes com seus trinados. A construção inacabada despontava como exceção.
Justamente ali abrigou-se uma espécie de ermitão urbano. Chegou em silêncio, o saco pejado de despojos às costas. Transpôs o caminho em silêncio e se instalou nos fundos do cômodo, no ângulo à esquerda entre duas paredes. À noite – chegou nas noites frias de agosto – acendia uma fogueira miúda, que projetava sombras fantasmagóricas nas paredes; em seguida, preparava seu desjejum.
Não conversava com a vizinhança, não incomodava ninguém e, também, não era incomodado. Vestia-se com andrajos e suas barbas e cabelos longos espantavam. Acumulava montanhas de tralhas que – provavelmente – vendia por uns poucos cruzados em depósitos de recicláveis. O ciclo de acumulação se repetiu algumas vezes ao longo dos meses em que ficou por lá.
Numa madrugada, houve festa na vizinhança. Música alta, vozes, risos, gente pelas calçadas. Acordou, reacendeu a fogueira, em silêncio, com estoica resignação. Depois resolveu assar nas chamas qualquer coisa que desprendia um cheiro desagradável. Um garoto que estava na festa – num daqueles impulsos infantis de autoafirmação – fungou alto, para demonstrar seu desagrado com o cheiro.
O sujeito, do fundo do cubículo, avermelhado pelas chamas curtas que dançavam no seu rosto, olhou o garoto nos olhos. Não havia ódio, raiva, censura, nem mesmo rancor naquele olhar. Só uma expressão de surpresa, que embutia uma vaga repreensão. Permaneceu em silêncio, sereno, dedicando-se à sua refeição cujo odor repugnava.
Numa de suas ausências, chegaram alguns sujeitos por lá. Limparam o terreno e removeram as tralhas; ali – deduz-se – o ermitão entendeu a mensagem que findara sua estada. Desapareceu silenciosamente pelas ruas da Feira de Santana, sem deixar rastros.
Vagabundo ou morador de rua? Nenhuma definição parecia precisa. Uma leitura, tempos depois, trouxe um conceito mais preciso. O sujeito lembrava Simão, um ermitão de “A Ilha Perdida”, da escritora Maria José Dupré. Assemelhava-se, com seu silêncio e sua resignação, a um ermitão, ermitão urbano que vagava pelas ruas da Feira de Santana.
No que é que vai dar o monumental quiproquó bancário que assola o Brasil desde meados do ano passado? Ninguém arrisca uma resposta incisiva. Primeiro, porque ninguém, até aqui, é capaz de dimensionar a amplitude do estrago; segundo porque, ao que parece, muita gente graúda está envolvida na fraude que – a cogitação é do ministro da Fazenda, Fernando Haddad – pode ser a maior já registrada na História do Brasil. Muita coisa já veio à tona, mas, pelo jeito, muito ainda está por vir.
Há, também, um terceiro complicador: no Brasil esgarçado por uma nociva dicotomia, as legiões que se engalfinham – governo e oposição – tentam grudar o rótulo da corrupção nos adversários. Parece que ninguém está muito interessado em apuração, nem em punição, menos ainda nas lições que o episódio dantesco oferece.
O mercado bancário não é similar ao de batatas, parafusos ou iphones. Seu produto – o dinheiro – é responsável por fazer circular todos os demais produtos; a confiança no papel-moeda – não o papel-moeda em si – é o sustentáculo do sistema financeiro; dúvidas ou desconfiança de insolvência sobre instituições bancárias são muito mais perturbadoras que falências em indústrias ou empreendimentos agrícolas, por exemplo. Afinal, uma quebradeira bancária contamina e paralisa toda a economia.
A natureza do sistema bancário explica a apreensão após a eclosão do escândalo envolvendo o Banco Master. Em parte, esta apreensão se deve ao desassombro com o que escândalo foi lapidado; se deve, também, à constatação que ajustes no sistema regulatório são imprescindíveis. Senão, nada garante que novas fraudes não eclodam mais à frente, causando estragos potencialmente sistêmicos.
Ignorantes e irresponsáveis são incapazes de dimensionar o alcance de uma crise bancária sistêmica, capaz de conduzir sociedades à beira da barbárie. Não falta literatura sobre o tema, de elevada qualidade: autor que se dedicou durante décadas ao estudo da moeda – o papel-moeda – John Kenneth Galbraith esmiuçou fraudes bancárias e o processo de criação de dinheiro. Muitas experiências conduziram a desdobramentos catastróficos. Ele é apenas um dos autores que trataram do tema.
Não diria que o Brasil se aproxima de uma débacle, como diriam os franceses. Mas o episódio do Banco Master é um didático e contundente alerta. Note-se, desde já, que as apurações apenas começaram, cercadas de muita polêmica e de questionáveis decisões judiciais. Imagina-se que as investigações podem produzir efeitos, inclusive, sobre o cenário eleitoral.
O fato é que, no Brasil cujas instituições gradualmente se fragilizam, essa fragilidade se aproximou perigosamente do sistema bancário. Deveria ser redundante dizer que o episódio tem que ser investigado, e os responsáveis, punidos. Mas isto aqui é Brasil. Pode ser que, inclusive, o episódio não dê em nada.