Ontem a Feira de Santana foi palco do mais importante ato de pré-campanha até aqui: o lançamento dos nomes da chapa majoritária do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto. Além dele, pré-candidato a governador, figuram o prefeito de Jequié, Zé Cocá, como pré-candidato a vice-governador, e os pré-candidatos ao senado Ângelo Coronel e João Roma.
O evento na Câmara dos Dirigentes Lojistas serviu para realçar o protagonismo do prefeito feirense nesta fase de pré-campanha. Afinal, segundo ele mesmo revelou, foi convidado para integrar, como vice-governador, as chapas do próprio ACM Neto e – surpresa maior – do atual governador, Jerônimo Rodrigues (PT). Mesmo recusando ambos os convites, José Ronaldo segue como player neste 2026.
Formalmente, ontem, ele sacramentou o apoio ao ex-prefeito de Salvador. Manteve-se, assim, alinhado à oposição, posição que sempre sustentou em nível estadual, desde a vitória do petê no longínquo 2006. Seria uma imensa surpresa mudar de lado depois de tanto tempo.
Mas, objetivamente, que tipo de influência José Ronaldo pode exercer no tabuleiro eleitoral feirense para alavancar ACM Neto? Em 2022, no segundo turno, o ex-prefeito de Salvador obteve 204,6 mil votos, contra 142,4 mil votos do atual governador Jerônimo Rodrigues. Diferença considerável, sobretudo porque o presidente Lula – que alcançou 221,4 mil votos – fez dobradinha com Jerônimo, mas, mesmo assim, não alavancou seu candidato em Feira de Santana.
Não há pesquisas recentes e ninguém sabe o que pensa – com razoável precisão – o feirense sobre a eleição para governador. Terá Jerônimo consolidado uma avaliação positiva sobre o eleitorado local? Ou a rejeição ao petismo no plano estadual vai se manter? Deriva destas indagações o tipo de influência que José Ronaldo poderá exercer – ou não – sobre os eleitores feirenses.
É bom lembrar que, nas duas últimas eleições, a oposição ao governo do estado saiu vitoriosa na Feira de Santana. Inicialmente com José Ronaldo no primeiro turno, em 2018 e, em 2022, com o próprio ACM Neto. Nova vitória da oposição, portanto, não será surpresa nenhuma.
Manter José Ronaldo como aliado talvez sirva mais para ACM Neto evitar danos eleitorais na Feira de Santana que, propriamente, agregar muito mais votos em outubro. Daí, talvez, o sentido do ato de ontem.
Enquanto a guerra avança no Irã, irradiando-se pelo Oriente Médio, aumentam as dúvidas sobre a regularidade na oferta de petróleo mundo afora. Os preços oscilam, acompanhando as declarações erráticas de Donald Trump, presidente norte-americano travestido de imperador laranja. Projeções sinalizam para turbulências que devem se estender pelos próximos meses, sustentando as tendências de alta nos preços. Não se sabe, inclusive, até onde pode ir a destruição da infraestrutura petrolífera, essencial para a oferta do produto.
Dramas e tragédias que se desenrolam no conflagrado Oriente, no entanto, não se esgotam por lá. As consequências se espalham mundo afora, alcançando a gente pacífica que, pelas telas da vida, acompanha com horror o conflito provocado por Estados Unidos e Israel. Os efeitos alcançam um sensível órgão metafórico da anatomia humana: o bolso.
Sim, a elevação dos preços dos combustíveis já se faz sentir por aí. Até na Bahia já houve manifestações de motoboys, cobrando medidas que ajudem a mitigar os preços em ascensão. Longos engarrafamentos registraram-se na Avenida Paralela, principal via de circulação de Salvador. Sob pressão dos custos, a categoria tenta forçar o poder público a soluções.
Mas, enquanto para alguns resta apenas o protesto como instrumento de luta, muita gente opta pela aquisição de automóveis elétricos. O noticiário sinaliza que, a partir da deflagração da guerra e com a perspectiva da instabilidade na oferta e elevação dos preços dos derivados do petróleo, comprar um carro elétrico tornou-se alternativa para muitos brasileiros.
Os sites estão coalhados de notícias sobre aumento na demanda por veículos elétricos, com a formação de filas para aquisição; por outro lado, cresce a oferta de pontos para reabastecimento, tornando os elétricos mais atrativos. Argumentos como fonte de energia renovável e transição energética foram repisados, mas não vinham emplacando. O efeito sobre o bolso foi muito mais convincente.
É irônico que a guerra deflagrada pelos Estados Unidos para reafirmar sua hegemonia pode servir de referência na transição dos veículos movidos por combustíveis fósseis para automóveis elétricos. Mais ainda: esta transição tende a favorecer a China, um dos alvos da reação imperialista de Donald Trump. Até aqui, claro, apenas desenham-se os marcos desta transição, mas o cenário parece favorecê-la.
Quem busca trocar de carro não é movido por razões ideológicas ou simpatias geopolíticas, mas pela racional intenção de economizar. Motoristas por aplicativos, por exemplo, estão entre os que buscam substituir seus antigos modelos a gasolina por modernos veículos elétricos. A relação custo-benefício, para os elétricos, tornou-se muito atrativa.
Neste embate, os governos deveriam mover-se para oferecer mais e mais pontos de reabastecimento dos automóveis elétricos. Ainda é temerário, por exemplo, empreender longas viagens rodoviárias, sobretudo em direção ao interior do País. Uma ação rápida dos governantes certamente impulsionaria a transição, beneficiando o meio ambiente.
Claro que o momento é de ampla incerteza, mas, como se afirmou, há sinais de mudanças que podem se tornar vertiginosas mais à frente. Quem sobreviver, provavelmente verá...
FONTE: André Pomponet
Os anos de recessão, baixo crescimento econômico e precarização das relações trabalhistas deixaram cicatrizes no mercado de trabalho no Brasil. Aqui na Feira de Santana, como é óbvio, não foi diferente. Os dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) oferecem uma panorama da situação, sinalizando para as fragilidades e desafios que estão postos para a Princesa do Sertão.
Aqui, muita gente se vira por conta própria para assegurar o pão de cada dia: segundo o censo, são 75,4 mil trabalhadores, o que corresponde a 28,25% da força de trabalho. Quem se vira nessa realidade tem baixo índice de formalização: só 15,5 mil – ou 20,6% do total – dispõem de CNPJ. Os demais, 59,9 mil pessoas, atuam sem este amparo formal.
O trabalho doméstico na Feira de Santana também é bem precário, conforme nos informa o Censo 2022. Naquele ano, havia 11 mil pessoas na função, ou 4,15% da força de trabalho. Só 19,5% tinha carteira assinada, - 2,1 mil – enquanto 8,9 mil, ou 80,4%, atuavam sem registro formal. Atividade tipicamente exercida por mulheres, o trabalho doméstico soma-se a quem labuta na informalidade no circuito da precariedade.
A maior parte dos trabalhadores feirenses atua no setor privado: 139,1 mil, ou 52% da mão de obra total. Neste segmento, a informalidade também é alta: somente 100 mil têm carteira de trabalho assinada, como revela o Censo 2022. Os demais, 39,1 mil, atuavam sem o reconhecimento dos seus direitos.
Além da prefeitura, a Feira de Santana abriga uma série de órgãos públicos vinculados às esferas estadual e federal. No total, há 25,5 mil servidores públicos na Princesa do Sertão. A esta contingente somam-se os militares (3,6 mil) e o funcionários de empresas públicas (1,3 mil). No total, pouco mais de 30 mil trabalhadores apresentam vínculos com órgãos ou empresas públicas.
Figurando na elite das funções produtivas estão os empregadores. Estes somam 8,9 mil pessoas ou 3,35% do universo pesquisado. No grupo figuram desde empresários de fato – com dezenas ou centenas de funcionários – até microempreendedores, com apenas um colaborador. São bastante formalizados: 7,9 mil (88,7%) dispõem de CNPJ.
Por fim, o Censo 2022 detectou que 1.920 pessoas vivem na precaríssima condição de prestadores de serviços a parentes ou moradores, sem receber nenhum tipo de remuneração. Embora integrados à labuta, não desfrutam sequer do direito ao salário. Estão entre os mais frágeis no precarizado ambiente de trabalho brasileiro.
Naquele 2022, a renda domiciliar per capita mensal alcançava R$ 1.209, segundo o levantamento. Desde então, é provável que alguma melhora no cenário tenha sido registrada, por conta do crescimento econômico e da redução nos índices de desemprego. Mas a precariedade é um flagelo que permanece aí, graças à reforma trabalhista de Michel Temer, o “mandatário de Tietê”.
Não é à toa que a revogação da jornada 6x1 conta com tanto apoio da sociedade.
Menos de 10% da população feirense vive em favelas ou comunidades urbanas, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Detentora da 35ª maior população entre as cidades brasileiras, a Princesa do Sertão ocupa apenas a 49ª colocação no ranking da população que reside em favelas. No levantamento, apurou-se que há 49 comunidades urbanas no município, com 44.699 habitantes. Esse número representa 7,25% da população feirense.
A área do município ocupada pelas favelas totaliza 18,63 quilômetros quadrados. A densidade demográfica é bem elevada: são 2.399 pessoas por quilômetro quadrado. Para efeito de comparação, a média total do município não vai além de 472,45 pessoas. Ou seja: no espaço ocupado por uma pessoa na média total da população, acotovelam-se cinco residentes em comunidades.
Confirmando o que todo mundo intui, pretos e pardos destacam-se entre os moradores das favelas feirenses. Os pretos são 29,2% da população total, mas somam 35,6% nas favelas; os pardos, por sua vez, são 53,6% da população e 52,6% nas favelas; os brancos é que estão, percentualmente, bem menos presentes nessas comunidades: são apenas 11,6%, contra 16,8% na população geral.
Há 20,1 mil moradias nas favelas, o que representa 7% do total de domicílios contabilizados na Feira de Santana. As mulheres são maioria: para cada 100 delas, há 91 homens. Para cada 100 pessoas com até 14 anos, há 42,4 idosos, o que mostra que a população das comunidades também está envelhecendo. A idade mediana, a propósito, é de 31 anos.
Há equivalência entre alguns números observáveis nas favelas e nos demais espaços da cidade: se 97,5% da população geral tem acesso a água encanada até dentro de casa, nas favelas esse percentual é só um pouco menor: 96,3%. Iluminação pública no entorno é quase igual: 97,6% nas favelas e 97,9% fora delas. Ambos os serviços, pelo visto, estão próximos da universalização.
Existe distância maior em relação a vias pavimentadas no entorno. Enquanto o percentual alcança 93,3% no município em geral, esse índice cai para 82% nas comunidades. Bueiros e bocas-de-lobo são ainda mais escassos: só existem em 17,35% das vias nas favelas e em 32% fora delas. Eloquentes, os números mostram o quanto a Feira de Santana precisa avançar em pavimentação e, sobretudo, em saneamento.
No recorte do IBGE há mais informações relacionadas à infraestrutura, o que é natural para caracterizar com mais precisão as favelas ou comunidades urbanas. Mas uma informação – que até já foi apresentada anteriormente – chama a atenção: a taxa de analfabetismo. Nas favelas, 90,4% das pessoas são alfabetizadas, contra 93,4% no conjunto da população.
Por um lado, a informação é positiva: atesta a quase universalização do acesso à educação básica; por outro, mostra que o domínio da escrita e da leitura é indispensável, mas não suficiente para se superar a condição de pobreza. Somadas, as visões mostram que há avanços, mas que é fundamental seguir em frente.
Não é de hoje que, neste espaço, comenta-se sobre o grande vazio populacional que se verifica em algumas regiões da Feira de Santana, particularmente naquelas localizadas dentro do Anel de Contorno. Estes vazios, em parte, decorrem da ampliação de áreas residenciais nos limites da cidade, sobretudo de condomínios em bairros como SIM, Conceição, Santo Antônio dos Prazeres e Asa Branca, para mencionar apenas alguns deles.
Pois bem: o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em alguma medida, captou esse fenômeno, que se aprofundou nas últimas décadas. Os números são eloquentes: dos 288.188 domicílios particulares recenseados pelo IBGE, 221.592 (76,91%) estão ocupados, segundo o levantamento. De acordo com o conceito do instituto, abrigavam moradores no dia da coleta.
No conjunto dos demais domicílios, 48.847 estava vazios, o que corresponde a impressionantes 16,95% do total de residências. Mas não para por aí: 17.679 imóveis são ocupados apenas de maneira ocasional, equivalendo a 6,14% do total de domicílios particulares. Isso significa que mais de 66 mil imóveis em Feira de Santana estão sem uso ou com uso eventual.
O mesmo Censo 2022 apurou que cada residência particular abriga, em média, 2,77 pessoas. Isso significa que os imóveis vazios na Princesa do Sertão poderiam reunir 184,4 mil moradores. O número corresponde a quase um terço da população total do município. Praticamente, de cada quatro imóveis residenciais da Feira de Santana, um deles está vazio.
Como já mencionado, o boom imobiliário das últimas décadas reconfigurou o uso do espaço na Feira de Santana. Milhares migraram para as áreas outrora limítrofes da cidade, originando bairros inteiros que avançaram, inclusive, sobre antigas áreas rurais. Grande parte do impulso decorreu de programas habitacionais dos governos, como o Minha Casa Minha Vida.
No período, não se verificaram intensos movimentos migratórios em direção à Feira de Santana, nem houve acentuado crescimento nas taxas de natalidade, muito pelo contrário. Qual o desdobramento natural do processo? O esvaziamento inevitável do miolo da cidade.
Muita gente que trocou de casa tenta, ainda hoje, desfazer-se do imóvel antigo; outros realizaram o sonho da casa própria, livrando-se do aluguel, cuja demanda caiu; há, ainda, quem recorra a arranjos familiares porque não pode arcar com os custos dos alugueis, que elevaram-se. Há, principalmente, declínio nas taxas de expansão da população.
Enfim, diversas variáveis explicam o fenômeno que se percebe a olho nu e que os números do Censo 2022 atestam: há milhares de imóveis vazios na Feira de Santana, sem uso pelas mais diversas razões. Mergulhando nos números por setores censitários, certamente se extrairá respostas consistentes, que vão além das listas de possibilidades, como a indicada acima.
Os números do IBGE lançam luzes sobre a ocupação urbana da Feira de Santana e sobre a necessidade do planejamento.