Até os anos 1980, na Princesa do Sertão, era muito comum se deparar com pessoas que não sabiam ler, nem escrever. Muitas vieram do campo, labutaram na roça e possuíam idade avançada; outras, mais jovens, absorvidas pela incontornável necessidade de trabalhar, abandonavam logo os estudos; para boa parte da população, inclusive, não havia escolas e muitas das que existiam apresentavam qualidade sofrível.
A lembrança leva a reconhecer os avanços da educação nas últimas décadas aqui no Brasil e, também, na Feira de Santana. Isso com base nos números do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No levantamento, constatou-se que pelo menos 98% da população com idade até 34 anos é alfabetizada na Princesa do Sertão. Isso mesmo: menos de 2% das pessoas até esta idade não sabe ler e escrever. Trata-se, indiscutivelmente, de um grande avanço. Obviamente, os melhores resultados estão entre os mais jovens: 98,37% na faixa dos 15 aos 19 anos; 98,56% dos 20 aos 24 anos; e 98,1% dos 25 aos 34 anos.
À medida que avançam as faixas etárias, as mazelas do passado tornam-se mais evidentes. Entre 35 e 44 anos a alfabetização alcança 96,39%; na faixa posterior (45 a 54 anos) o percentual é de 92,4%; entre 55 e 65 anos, quem sabe ler e escrever totaliza 88,45%. Acima de 65 anos, a taxa de alfabetização é inferior a 80%.
O Censo 2022 trouxe também uma informação inédita, que ajuda a compreender a realidade brasileira: o percentual de pessoas alfabetizadas nas favelas. No caso da Feira de Santana, este percentual alcança 90,42% da população residente nesses espaços, contra 93,4% nas demais regiões da cidade.
Mas, se o brasileiro – o feirense, neste caso – teve acesso à escola e formalmente conseguiu se alfabetizar, os desafios relacionados à permanência e à aprovação seguem significativos. Neste quesito, as mulheres estão à frente: elas têm, em média, 10 anos de estudo, contra 9,2 dos homens. Isso significa que, no agregado, na Feira de Santana, as pessoas dispõem apenas do Ensino Fundamental, na média.
Quando se considera o recorte relacionado a cor e raça, as históricas mazelas se repetem. Os brancos, na média, ostentam 10,6 anos de estudo; os pardos (9,6) e os pretos (9,1) têm menos anos de estudo; a liderança em escolaridade cabe aos amarelos (11,2) e, por fim, os indígenas têm 8,8 anos de estudo, conforme o levantamento.
Reitere-se que, na comparação com 40 ou 50 anos atrás, os avanços foram notáveis. Mas o mundo mudou muito também, desde então. Tecnologia, ciência e informação evoluíram muito, tornando o mundo muito mais complexo. Esta complexidade crescente exige pessoas com mais escolaridade, habilidades e conhecimentos.
Segue imposta, portanto, a necessidade de seguir avançando, agora de maneira mais acelerada.
Há dois anos o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os números do Censo 2022 referentes à alfabetização da população com idade superior a 15 anos. Nesta faixa etária, aqui na Feira de Santana, 93,4% sabia ler e escrever, considerando homens e mulheres. O número de analfabetos é declinante: 6,6%, percentual melhor que a média baiana (12,2%), mas inferior à soteropolitana (3,45%). Novas informações, divulgadas recentemente, ajudam a entender melhor o cenário.
Há equilíbrio na proporção de alfabetizados entre mulheres (93,5%) e homens (93,2%). Quando se parte para o recorte por cor ou raça, porém, as diferenças começam a ficar evidentes. A única cor cuja média de alfabetização é superior à média total é a branca: Homens e mulheres ostentam 96% de letramento.
Os pretos ocupam a condição mais desvantajosa: 91,14% dos homens e 91,41% das mulheres são alfabetizados, o que o corresponde a quase 5% de diferença em relação à população branca. Os pardos – boa parte da população feirense – ostentam condição um pouco melhor: 93,64% para os homens e 93,85% para as mulheres.
No universo pesquisado, há a população indígena, em que os homens (92,79%) são mais alfabetizados que as mulheres (91,81%). Por fim, há aqueles que se declaram amarelos, com 96,84% dos homens alfabetizados e 92,59% das mulheres. Apenas nestes dois segmentos os homens tem nível de alfabetização superior ao feminino, embora neles a população seja numericamente inferior às dos demais grupos.
Estes números oferecem elementos para diversas interpretações. A mais óbvia é que o acesso à educação está se universalizando e a chaga do analfabetismo vem se reduzindo nas últimas décadas. Os censos anteriores do IBGE atestam isso. A alfabetização, no entanto, é apenas uma etapa do processo educacional. Há acesso, mas a qualidade quase sempre deixa a desejar, conforme atestam outros indicadores.
O acesso à alfabetização caminha para a universalização, mas as históricas desigualdades de cor e de raça são visíveis na Princesa do Sertão. Pretos e pardos – sobretudo os primeiros – não dispõem do mesmo acesso que os brancos. Provavelmente não se trata só de uma questão de acessar a escola, mas de permanecer nela.
Note-se que os números tratam só de alfabetização. Não se destrincham as condições de permanência, que se refletem sobre os anos de estudo. Nestes, provavelmente, ficam mais agudas as desigualdades sociais e econômicas que afligem pretos e pardos, como inúmeras pesquisas e levantamentos indicam.
Desde a redemocratização que o Brasil avança no esforço de universalização da educação. Os resultados das políticas públicas são nítidos, como os números demonstram, inclusive na Feira de Santana. Mas educação não depende só de matrícula disponível. Os fossos sociais – alguns deles abissais para certos segmentos – freiam a emancipação de boa parte da população, como os números também atestam.
A movimentação para as eleições de 2026 começou bem antes do período eleitoral propriamente dito. Na Bahia, teve início ano passado, quando a fritura do senador Ângelo Coronel ganhou impulso; em nível nacional, também houve enorme antecipação: primeiro, a oposição esmagava um Lula enfraquecido; depois, as lambanças da extrema-direita fortaleceram Lula; agora, enxerga-se uma nova reversão nas expectativas.
O curioso é que, apesar da gigantesca precipitação, nunca
houve tão pouca clareza sobre o que pode acontecer até outubro. Em nível
estadual, candidaturas e composições de chapas estão razoavelmente claras,
apoios caminham para a consolidação e o repertório dos candidatos é conhecido
do público, até por praticamente não haver debutantes.
Embora menos cristalino, o cenário nacional tem, pelo menos,
o principal embate já desenhado: o presidente Lula tentando manter-se no cargo
e Flávio Bolsonaro (PL) – o filho do “mito” – como principal adversário.
Indeciso, o “Centrão” mantém-se à espreita, farejando favoritismo e benesses;
com cenário incerto, a dúvida pode se prolongar, convenientemente, até o
pleito.
Mas, apesar das claras demarcações políticas e ideológicas,
há muitas sombras no cenário. Os fronts interno e externo fornecem as
incertezas. Muitas delas derivam dos riscos – reais e potenciais – à
democracia. Caminha-se, efetivamente, para as eleições, mas sob que condições?
Diversos acontecimentos recentes fortalecem temores e dúvidas.
Tresloucado, Donald Trump pode tentar interferir nas eleições
brasileiras? De que maneira? Além dele há outros atores interessados, como os players
das big techs? As intervenções se limitariam ao vale-tudo do universo
digital ou – dado o conflagrado cenário atual – poderiam ir além? O
questionamento é recorrente e, em função do modus operandi do Imperador
Laranja, não pode ser repelido como especulação ou temor infundado.
No cenário interno também há motivos para preocupações. Afinal,
há três anos, inconformada com o resultado das eleições, a extrema-direita
tentou um golpe, que fracassou; caso perca novamente, como essa gente reagirá?
Xingamentos e ameaças a adversários políticos e a ministros do Supremo Tribunal
Federal permanecem, sinalizando a mesma postura do passado recente.
Para tornar o ambiente ainda mais turbulento, há os recentes
escândalos de corrupção que, pelo visto, envolvem políticos à direita, à
esquerda e – sobretudo – o insaciável “Centrão”. É inegável que as investigações
envolvendo o INSS e o Banco Master, por exemplo, adicionam tensão ao cenário já
conturbado.
Enfim, à primeira vista, tudo parece claro e transparente,
com as tratativas para composição de chapas e alianças eleitorais ganhando
fôlego e caminhando para sua conclusão. Mas, numa dimensão mais ampla, pairam
incertezas recentes e ameaças que não se verificavam há décadas.
Resta torcer para que a trôpega democracia brasileira siga se
sustentando de pé, neste dramático ano eleitoral de 2026...
“Em Feira de Santana, por exemplo, o rebanho católico encolhe, apesar do crescimento da população. Em 1991 os católicos representavam 334 mil pessoas. Dez anos depois, eram 327 mil, para recuar para 318 mil em 2010. Ao longo dos mesmos 19 anos, a população feirense passou de 406 mil para 556 mil. Todos os números são de censos do IBGE.”
“No sentido oposto, os chamados evangélicos expandiram-se de maneira robusta: eram, no total, 27 mil em 1991; saltaram para pouco mais de 80 mil no censo seguinte, alcançando, por fim, 108 mil fieis no último levantamento, em 2010. Representam, portanto, cerca de um sexto da população. O total agrega os chamados pentecostais e as demais vertentes, que se pulverizam em dezenas – talvez centenas – de denominações diferentes.”
Os dois parágrafos acima fazem parte de texto que escrevi há pouco mais de 10 anos – em 26 de fevereiro de 2015 – na Tribuna Feirense. O título era “Números da religião na Feira de Santana” e analisava a evolução das predileções religiosas aqui na Princesa do Sertão, com base nos números dos censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Os números do Censo 2022 já estão disponíveis e revelam que a tendência apontada acima se mantém.
O número de católicos, de acordo com o levantamento, caiu para 249,7 mil. O total de evangélicos, por sua vez, chegou a 169,3 mil. Caso as tendências se mantenham, talvez, no próximo Censo, a quantidade de evangélicos e católicos seja próxima. Mudança expressiva em 40 anos, quando o catolicismo predominava e os evangélicos representavam apenas uma fração do número de católicos, como mostrava o levantamento de 1991.
Também houve crescimento entre aqueles que se declaram sem religião, mas de forma residual: 71,2 mil. Nos censos anteriores houve um aumento expressivo, que perdeu fôlego. Eis mais um trecho do mesmo texto: “No Censo 1991 do IBGE, 31,4 mil feirenses declararam-se sem religião. Nove anos depois, em 2000, o número passou para pouco mais de 51 mil; No Censo 2010, novo salto: 68,3 mil pessoas afirmaram que não seguem nenhuma religião.”
No texto anterior não houve referência aos adeptos das demais religiões. No levantamento de 2022, constam 42,5 mil que abraçam essas opções. Nesse grupo estão incluídos os espíritas, praticantes da Umbanda e do Candomblé, seguidores de tradições indígenas e, também, aqueles identificados com “outras religiosidades”.
Comparando com o cenário de 1991, quando o catolicismo era força hegemônica, o cenário mudou significativamente, ganhando maior diversidade. É a conclusão do texto de 11 anos atrás, à qual recorro mais uma vez:
“Em suma, pode-se afirmar que hoje, de fato, existe maior diversidade religiosa. (...) O que se espera é que a reconfiguração das opções religiosas da população não conduza à divisão e à intolerância. Ao logo de séculos, as disputas religiosas funcionaram como combustível para conflitos fraticidas. Exatamente o oposto daquilo que Jesus Cristo pregou...”
As verdes colinas que circundam a Feira de Santana parecem as mesmas de sempre. Até estão mais verdes, por conta das chuvas recentes que caíram sobre a cidade. Diferente mesmo só o céu, encoberto e acinzentado nos últimos dias, sem o azul habitual. Mas, às vezes, é comum nesta época do ano, em que as águas de março fecham – até afogam – o verão. Até a aflição das andorinhas, que percebem o verão agonizando sob a chuva fina, é típica da época.
Nas rodovias que circundam a Feira de Santana o ir-e-vir é rotineiro – monótono até – com automóveis avançando em cadência, carretas deslizando com estrépito, motociclistas buzinando sem cessar, ciclistas concentrados nos pedais, gente impaciente aguardando nos pontos.
Na cidade as procissões acorrem ao centro para o comércio, escolas, faculdades, clínicas, hospitais, repartições públicas. A pressa e a afobação também são corriqueiras, sempre há gente se atrasando para seus compromissos o tempo inteiro. Que dizer, então? Tudo, na Princesa do Sertão, aparenta normalidade.
A normalidade, porém, se fragmenta, em mil estilhaços, quando se busca o noticiário nas telas dos celulares. Há mudanças em curso – trágicas – acontecendo pelo mundo. A maior delas é um novo ciclo de guerras e conflitos deflagrados a partir da ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. No final de semana, mais uma vez, o Irã tornou-se epicentro de nova conflagração.
“Estamos distantes do Irã, isso nunca vai chegar aqui!”, dirá alguém, com irrefletido otimismo. Antigamente filtros e aparências refreavam um pouco o afã imperialista. Era o tempo dos organismos multilaterais, legados depois de catastróficas guerras mundiais, que mediavam – e até evitavam - conflitos. Esse tempo acabou, como Trump demonstra. A Venezuela, aqui pertinho, é um bom exemplo.
Sim, há uma aparente normalidade por aí, a rotina atesta. Mas a barbárie que o noticiário entorna empesteia a atmosfera, seja no mercantil centro feirense, nos bairros residenciais afastados e silenciosos ou no campo que verdeja e onde as sementes de milho e feijão já são lançadas. Entre os mais lúcidos, as guerras sempre despertam a sensação de que, invariavelmente, a humanidade é a derrotada quando elas afloram.
Mesmo quando as chuvas que fecham o verão amaciam a terra e prometem festas juninas fartas mais à frente.