Conheci Carybé no começo da adolescência, lendo os livros de Jorge Amado, que ele ilustrava com seus traços inconfundíveis. Aqueles pequenos desenhos – que passam sempre a sensação de movimento – impunham demoradas e deslumbradas contemplações. A ansiedade com que percorria as páginas dos romances se diluíam quando deparava-me com as ilustrações. Eram precisos detidos e rigorosos olhares para absorver a sua arte.
Na vida adulta, percorrendo exposições – algumas delas fora da Bahia – às vezes reencontrava Carybé nalgum museu e as sensações juvenis retornavam, pulsantes. Mas nestas ocasiões com intensidade maior, pois estavam ali os originais, com os traços inconfundíveis do mestre argentino de nascimento, mas baiano por afetividade e afinidade espiritual.
Pois, neste final de semana, tive o privilégio de visitar uma fantástica exposição das obras de Carybé. No Museu da Bahia – no Corredor da Vitória, em Salvador – estão em exposição 227 desenhos do mestre argentino em nanquim sobre papel. Boa parte data de 1950, quando o artista visitou a Bahia pela quarta vez, fixando residência. Os desenhos integraram a Coleção Recôncavo, lançada em 1951 e estão sendo expostos pela primeira vez.
Maravilhado percorrendo as obras, notei que boa parte do cotidiano baiano dos anos 1950 está ali. A Lavagem do Bonfim daquele ano conta com uma série de desenhos; o Candomblé e suas personagens também estão lá, como não poderia deixa de ser; há, também, reproduções de festas – como quermesses – que envolvem o observador na sensação de agitação e movimento.
Mas, o que mais chamou a atenção, foi a reprodução do cotidiano dos trabalhadores baianos, a Baía de Todos os Santos infestada de saveiros, a lufa-lufa mercantil na rampa do Mercado Modelo, em Água de Meninos, em toda a Cidade Baixa. São pescadores, marítimos, carregadores, vendedores de peixe, ambulantes, camelôs, vendedoras de acarajé, comerciantes e comerciários, fregueses, enfim, a Bahia reproduzida nas lides econômicas.
Nas águas da Baía, as velas estufadas de uma infinidade de embarcações. Naquela época de escassas rodovias e intenso dinamismo econômico no Recôncavo, as águas tranquilas da Baía de Todos os Santos substituíam rodovias, ferrovias, aeródromos, transportando as riquezas em saveiros que balançavam ao ritmo das ondas do mar. Rota comercial e objeto de contemplação misturando-se.
Além da exposição de Carybé em si, há como atrativo adicional o próprio Museu da Bahia. É construção antiga, ano que vem completa 100 anos. Funcionou como sede da Secretaria de Educação e Saúde e incorporou diversos elementos arquitetônicos de solares demolidos da Bahia. A porta gigantesca, entalhada, de arenito e jacarandá, data de 1674 e veio do solar João Matos de Aguiar, da Ladeira da Praça.
Vale, vale muito a pena conhecer os desenhos de Carybé – que anda esquecido pelos baianos – e o próprio Museu da Bahia, para quem nunca teve a oportunidade de visitar o espaço.
Depois de meses de muita especulação o prefeito José Ronaldo de Carvalho (União) descartou a possibilidade de afastar-se da prefeitura para ser candidato a vice-governador. Alguns analistas mais experientes apostavam que o prefeito não deixaria o cargo. Não há, portanto, grande novidade. Na própria campanha eleitoral para prefeito, em 2024, ele anunciou que não renunciaria ao mandato para candidatar-se em 2026. Cumpriu a palavra, mas alimentou um prolongado suspense que manteve seu nome em evidência.
A novidade na entrevista ao Acorda Cidade está na revelação de que foi convidado para ser candidato a vice-governador tanto por ACM Neto (União), quanto por Jerônimo Rodrigues (PT), atual governador. O convite feito pelo ex-prefeito de Salvador foi, inclusive, público, não se trata também de algo que o eleitorado não conheça.
Mas a revelação sobre o convite de Jerônimo Rodrigues foi mais surpreendente. Tudo bem que, há tempos, especulava-se sobre esta hipótese, a imprensa martelava diariamente, embora nenhum ator político relevante confirmasse. Mas, agora, foi o próprio José Ronaldo quem revelou o convite.
Por enquanto, segue a expectativa sobre o apoio de José Ronaldo a um dos candidatos a governador. Os mesmos analistas que duvidavam de sua renúncia apostam que ele manterá o apoio a ACM Neto. Tudo indica que sim. O que surpreende não é a opção, é a demora no anúncio. Afinal, José Ronaldo e ACM Neto integram o mesmo partido e, em tese, não deveria haver hesitação.
Assim, as revelações, em si, importam menos do que os seus prováveis desdobramentos. O mais importante deles é que o prefeito feirense se robustece politicamente para tentar a reeleição em 2028, caso deseje renovar o mandato. Afinal, foi convidado para compor chapa até com o candidato a governador do PT, principal partido adversário de José Ronaldo em nível local.
Dessa maneira, a tendência é José Ronaldo fortalecer-se frente à oposição feirense. Que discurso terão os petistas daqui a dois anos para contestar sua possível candidatura à reeleição? Discurso até se arranja, mas o convite de Jerônimo Rodrigues, sem dúvida, deixará a oposição local fragilizada, por mais que se negue. Isso, claro, caso o PT permaneça à frente do governo estadual. Se der ACM Neto, o prefeito feirense terá ainda mais margem de manobra.
Todo este cenário, obviamente, depende dos desdobramentos das eleições de outubro. Mas é indiscutível que o prefeito José Ronaldo de Carvalho e seu grupo político, desde já, largam em vantagem em relação à oposição local, graças ao convite formulado pelo governador Jerônimo Rodrigues.
No começo dos anos 2000, o noticiário abordava, com bastante
frequência, o escasso percentual de jovens brasileiros no ensino superior. Era
baixa, também, a quantidade de brasileiros com diploma universitário. Ninguém
imaginava que, nos anos seguintes, haveria um boom na oferta de vagas no ensino
superior privado, nem que as universidades públicas experimentariam uma rápida
expansão, alcançando, sobretudo, o interior do Brasil.
Na época, pouca gente dispunha de diploma de nível superior
na Feira de Santana. Desde então, a realidade mudou de maneira significativa,
no Brasil e por aqui também. O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) trouxe uma atualização do cenário, registrando uma mudança
radical em um par de decênios. No levantamento, constatou-se que 67 mil pessoas
dispunham de diploma de nível superior na Feira de Santana. Representavam
14,41% da população com mais de 18 anos.
Entre o nível médio completo e o superior incompleto havia
muito mais gente: 193,8 mil pessoas, ou 41,6% do contingente. Somam-se a outras
69,3 mil pessoas - 14,88% – que avançaram pelo filtro do ensino fundamental,
mas que não concluíram o ensino médio. Só que é significativo, ainda, o número
daqueles que não concluíram o ensino fundamental: 135,3 mil, o que corresponde
a 29% dos feirenses com mais de 18 anos.
Quais as profissões que os feirenses com diploma
universitário abraçaram? O IBGE também traz respostas: 21 mil pessoas estão em
Negócios, Administração e Direito; Na sequência, 15,1 mil em Saúde e Bem-Estar
e 8,9 mil em Educação. O total, em alguma medida, reflete a demanda por
trabalho, sobretudo na Saúde, na Educação, na Justiça e em atividades
vinculadas à Administração Pública.
Mas há também profissionais de Engenharias (5,2 mil), Artes e
Humanidades (5 mil), Ciências Sociais, Comunicação e Informação (4 mil) e
Ciências Naturais, Matemática e Estatística (3,1 mil). Nestes segmentos,
obviamente, figuram profissionais da educação também, mas, sobretudo, a
mão-de-obra mobilizada pelas empresas privadas do município.
A mão de obra mais qualificada disponível no mercado feirense
viabilizou o incremento da produtividade, traduzindo-se em uma maior geração de
riquezas para o município. Alguns segmentos foram mais favorecidos, a exemplo
daqueles vinculados aos serviços de saúde e educação. Como efeito indireto,
ajudou a dinamizar o comércio e demais serviços, já que estes trabalhadores
recebem remunerações melhores.
Dispor de trabalhadores qualificados é um requisito essencial
para a dinamização econômica. A Princesa do Sertão, como se vê, avançou
bastante na oferta de educação superior ao longo deste século. O que falta,
então, para se dispor de um mercado mais atrativo para a mão de obra feirense?
Certamente, uma maior diversidade nas atividades econômicas.
Mas isso é assunto para outro texto...
Até os anos 1980, na Princesa do Sertão, era muito comum se deparar com pessoas que não sabiam ler, nem escrever. Muitas vieram do campo, labutaram na roça e possuíam idade avançada; outras, mais jovens, absorvidas pela incontornável necessidade de trabalhar, abandonavam logo os estudos; para boa parte da população, inclusive, não havia escolas e muitas das que existiam apresentavam qualidade sofrível.
A lembrança leva a reconhecer os avanços da educação nas últimas décadas aqui no Brasil e, também, na Feira de Santana. Isso com base nos números do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No levantamento, constatou-se que pelo menos 98% da população com idade até 34 anos é alfabetizada na Princesa do Sertão. Isso mesmo: menos de 2% das pessoas até esta idade não sabe ler e escrever. Trata-se, indiscutivelmente, de um grande avanço. Obviamente, os melhores resultados estão entre os mais jovens: 98,37% na faixa dos 15 aos 19 anos; 98,56% dos 20 aos 24 anos; e 98,1% dos 25 aos 34 anos.
À medida que avançam as faixas etárias, as mazelas do passado tornam-se mais evidentes. Entre 35 e 44 anos a alfabetização alcança 96,39%; na faixa posterior (45 a 54 anos) o percentual é de 92,4%; entre 55 e 65 anos, quem sabe ler e escrever totaliza 88,45%. Acima de 65 anos, a taxa de alfabetização é inferior a 80%.
O Censo 2022 trouxe também uma informação inédita, que ajuda a compreender a realidade brasileira: o percentual de pessoas alfabetizadas nas favelas. No caso da Feira de Santana, este percentual alcança 90,42% da população residente nesses espaços, contra 93,4% nas demais regiões da cidade.
Mas, se o brasileiro – o feirense, neste caso – teve acesso à escola e formalmente conseguiu se alfabetizar, os desafios relacionados à permanência e à aprovação seguem significativos. Neste quesito, as mulheres estão à frente: elas têm, em média, 10 anos de estudo, contra 9,2 dos homens. Isso significa que, no agregado, na Feira de Santana, as pessoas dispõem apenas do Ensino Fundamental, na média.
Quando se considera o recorte relacionado a cor e raça, as históricas mazelas se repetem. Os brancos, na média, ostentam 10,6 anos de estudo; os pardos (9,6) e os pretos (9,1) têm menos anos de estudo; a liderança em escolaridade cabe aos amarelos (11,2) e, por fim, os indígenas têm 8,8 anos de estudo, conforme o levantamento.
Reitere-se que, na comparação com 40 ou 50 anos atrás, os avanços foram notáveis. Mas o mundo mudou muito também, desde então. Tecnologia, ciência e informação evoluíram muito, tornando o mundo muito mais complexo. Esta complexidade crescente exige pessoas com mais escolaridade, habilidades e conhecimentos.
Segue imposta, portanto, a necessidade de seguir avançando, agora de maneira mais acelerada.
Há dois anos o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os números do Censo 2022 referentes à alfabetização da população com idade superior a 15 anos. Nesta faixa etária, aqui na Feira de Santana, 93,4% sabia ler e escrever, considerando homens e mulheres. O número de analfabetos é declinante: 6,6%, percentual melhor que a média baiana (12,2%), mas inferior à soteropolitana (3,45%). Novas informações, divulgadas recentemente, ajudam a entender melhor o cenário.
Há equilíbrio na proporção de alfabetizados entre mulheres (93,5%) e homens (93,2%). Quando se parte para o recorte por cor ou raça, porém, as diferenças começam a ficar evidentes. A única cor cuja média de alfabetização é superior à média total é a branca: Homens e mulheres ostentam 96% de letramento.
Os pretos ocupam a condição mais desvantajosa: 91,14% dos homens e 91,41% das mulheres são alfabetizados, o que o corresponde a quase 5% de diferença em relação à população branca. Os pardos – boa parte da população feirense – ostentam condição um pouco melhor: 93,64% para os homens e 93,85% para as mulheres.
No universo pesquisado, há a população indígena, em que os homens (92,79%) são mais alfabetizados que as mulheres (91,81%). Por fim, há aqueles que se declaram amarelos, com 96,84% dos homens alfabetizados e 92,59% das mulheres. Apenas nestes dois segmentos os homens tem nível de alfabetização superior ao feminino, embora neles a população seja numericamente inferior às dos demais grupos.
Estes números oferecem elementos para diversas interpretações. A mais óbvia é que o acesso à educação está se universalizando e a chaga do analfabetismo vem se reduzindo nas últimas décadas. Os censos anteriores do IBGE atestam isso. A alfabetização, no entanto, é apenas uma etapa do processo educacional. Há acesso, mas a qualidade quase sempre deixa a desejar, conforme atestam outros indicadores.
O acesso à alfabetização caminha para a universalização, mas as históricas desigualdades de cor e de raça são visíveis na Princesa do Sertão. Pretos e pardos – sobretudo os primeiros – não dispõem do mesmo acesso que os brancos. Provavelmente não se trata só de uma questão de acessar a escola, mas de permanecer nela.
Note-se que os números tratam só de alfabetização. Não se destrincham as condições de permanência, que se refletem sobre os anos de estudo. Nestes, provavelmente, ficam mais agudas as desigualdades sociais e econômicas que afligem pretos e pardos, como inúmeras pesquisas e levantamentos indicam.
Desde a redemocratização que o Brasil avança no esforço de universalização da educação. Os resultados das políticas públicas são nítidos, como os números demonstram, inclusive na Feira de Santana. Mas educação não depende só de matrícula disponível. Os fossos sociais – alguns deles abissais para certos segmentos – freiam a emancipação de boa parte da população, como os números também atestam.