Naquele tempo, na famosa subida do Sobradinho, havia pouco comércio. Predominavam as fachadas sisudas das antigas residências, algumas delas já desgastadas pelo tempo. O vaivém dos antigos ônibus sinalizava que a cidade se expandia em direção à periferia, mas não eram incomuns boiadas pisando os paralelepípedos azulados, com seu passo lento. Pastavam nas áreas baldias do bairro, que iam escasseando. Depois, subiam, mansas, tocadas por aboios.
No cruzamento, no alto da ladeira, bem no acesso ao estádio Joia da Princesa, pulsava o coração comercial do Sobradinho. Ali havia pequenas farmácias, uma fábrica de tubaína já extinta, supermercado, padaria, bares minúsculos, antigos, e o badalado Ferry Boat, um bar em formato de embarcação, que se destacava naquele tempo de edificações térreas e telhados acanhados. Hoje há, lá, um posto de combustíveis.
Na quina da calçada triangular do Ferry Boat, bem na bifurcação, instalou-se uma banca de jornais que, passando por donos diferentes, subsistiu por muito tempo. Era fascinante passar por lá e conferir, semanalmente, as novas publicações disponíveis, os jornais do dia empilhados à espera dos leitores. O cheiro de papel novo das revistas era inebriante.
Às vezes o Ferry Boat fechava e a pintura descascava-se, desfazia-se sob a ação do sol e das chuvas. A garotada aproveitava os muros baixos e, com um curto salto acrobático, ocupava os espaços largos, correndo pra lá e pra cá na balbúrdia típica da infância. À época as brincadeiras eram analógicas, os primeiros jogos eletrônicos só chegavam às mãos das crianças abastadas.
Mas durante parte do tempo o Ferry Boat funcionava à noite, nos finais de semana. De casa, era possível ouvir canções fragmentadas que o vento trazia. Não sei se pelo repertório ou pela ação do vento, o fato é que as músicas soavam como profundos lamentos soturnos. Sobretudo nos domingos à noite, quando reinava o silêncio denso que antecedia as manhãs de segunda-feira.
Raros automóveis passavam produzindo aquele ruído característico sobre o calçamento liso. A vizinhança, pacata, recolhia-se cedo. Rádios e aparelhos de tevê funcionavam no volume compatível com os hábitos vigentes. As canções que rolavam no Ferry Boat, então, irradiavam-se ao sabor do vento, subindo e baixando, esticando-se, encurtando-se, numa melancolia mortificante.
Durante muito tempo alimentei o desejo juvenil de saber quem cantava aquelas músicas que atiçavam a tristeza domingueira, mais intensa nos dias frios, quando uma névoa leitosa insinuava-se antes da madrugada. Lembrava, então, da aula na manhã seguinte e o mal-estar crescia, corrosivo.
Pensava que, um dia, de alguma maneira, exprimiria aquelas sensações. Pois aí vai o texto, inesperado, depois de tê-lo começado com a intenção de apresentar números que revelam como o Sobradinho se tornou um bairro de idosos, ao longo dos anos...
Depois da refrega por nomes e cargos para as eleições majoritárias baianas, acredita-se que se aproxima o momento dos candidatos se debruçarem sobre os problemas que afligem os baianos para apresentar soluções. Os números do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), recentemente divulgados, podem servir de guia para diagnósticos. Está se supondo – talvez ingenuamente, vá lá – que, nos programas de governo, problemas estarão apontados, com o respectivo conjunto de ações indicado.
Segundo o Censo 2022, foram mapeadas 572 favelas e
comunidades urbanas da Bahia. Apurou-se que 1,370 milhão de baianos (9,69% do
total) residem nestes espaços, que totalizam 160 quilômetros quadrados. É
grande a aglomeração: 8.561,72 habitantes por quilômetro quadrado. As favelas
baianas abrigam 677,3 mil domicílios, o que corresponde a 9,85% do total de habitações
recenseadas.
Normalmente as favelas e comunidades urbanas são mais comuns
em grandes e médias cidades. Os pequenos municípios – presume-me – não costumam
abrigar estes aglomerados. Mas, mesmo restrito às cidades maiores, a questão
apresenta ampla heterogeneidade, assim como heterogêneas são as diversas
regiões da Bahia.
Mesmo assim, há elementos comuns. A vida na favela, por
exemplo, é mais corriqueira para as pessoas pretas: elas representam 22,3% da
população total, mas são 39,2% dos residentes em comunidades; os pardos
ostentam condição um pouco melhor: são 57,3% da população do estado e 51,1% em
favelas. Os brancos, por sua vez, são 19,6% dos baianos e apenas 9,3% dos
habitantes das comunidades.
Alguns números, à primeira vista, surpreendem: 53,8% dos
domicílios baianos tem conexão à rede de esgoto e, nas favelas, 85,6%; Nas comunidades, 98,1% tem acesso à
rede de abastecimento de água, contra 83,1% da população em geral; o percentual
de banheiros para uso exclusivo é próximo: 96,9% contra 99,1% em favelas; e a
coleta de lixo chega a apenas 83,3% da população em geral, mas a 96,5% das
favelas.
Os dados acima oferecem elementos para constatações. Pretos e
pardos – a população negra – alvejados pela exclusão histórica, seguem compondo
a maioria absoluta dos baianos mais pobres, residindo em habitações precárias,
comuns nas favelas. Festejam-se muitos avanços recentes, mas a exclusão segue,
indiscutivelmente, como um grande desafio.
Moradores de favelas e comunidades têm mais acesso a alguns
serviços públicos essenciais do que a média da população baiana. Não se trata
de um privilégio: mais comuns em grandes cidades, as favelas estão mais
próximas das redes de oferta destes serviços. Municípios menores, mais
distantes e a população rural seguem à espera das tão anunciadas extensões
destes serviços. Sem muito sucesso até aqui, como se vê.
Um recorte simples já oferece um panorama do desafio de levar
serviços essenciais a milhões de baianos. Oferece também uma amostra de que as
desigualdades sociais e raciais tem endereço facilmente localizável. Não se
diluem no território, concentrando-se nas favelas, em pequenos municípios e no
rural invisibilizado.
Enfim, não é por falta de informação que os problemas que afligem os baianos não são resolvidos.
Nos últimos tempos, é comum a mistura de política e religião, aqui no Brasil e mundo afora. Espertalhões fantasiados de líderes religiosos agadanham acólitos, conjuram transações tenebrosas escudados pelo histriônico discurso da fé e, cada vez mais, abocanham nacos crescentes de poder, tornando-se figurões nas repúblicas, mandando e desmandando. Nesta bandalheira, Jesus Cristo, coitado, é completamente desfigurado.
A última do gênero foi
protagonizada pelo mais destacado candidato a anticristo: Donald Trump, que, do
nada, resolveu se travestir de Jesus Cristo, numa imagem gerada por
Inteligência Artificial (IA). Isso depois de dirigir virulentos ataques ao Papa
Leão 14, que ousou contestar a matança promovida pelos Estados Unidos e por
Israel no Oriente Médio.
Muita gente diz que o
anticristo já está encarnado e vive por aí, pelo mundo. A crença prolifera pela
Internet e sempre ressurge em momentos de tensão e incerteza. Há tempos, não
aparecia um candidato tão bem talhado para o papel: além de travestir-se de
Jesus Cristo, deflagra guerras sanguinárias, persegue, prende e julga-se uma
espécie de imperador do mundo, a quem todos devem vassalagem.
Aqui no Brasil, tempos
atrás, apareceu um outro. Mas, a este, faltavam requisitos essenciais: além de
covarde, reunia a preguiça, a limitação cognitiva e o cinismo. Mesmo assim,
tiveram a pachorra de fotografá-lo posando de Cristo, numa cama de hospital, doentinho,
com uma legenda que é um sarro: “ele sangrou por nós”.
Sim, com Trump e seus
aliados, o mundo está do jeito que o diabo gosta. Pior do que a guerra em si –
infelizmente, ao longo da vida, vamos nos acostumando a vê-las – é a certeza de
que insensatos a conduzem, sabe Deus com que possível desfecho. Uma bomba
atômica, por exemplo, figura entre os possíveis epílogos.
Do jeito que o mundo está,
é melhor Jesus Cristo ficar por lá, ao lado do Pai...
Em oportunidades anteriores, tratou-se nesta espaço dos efeitos da proliferação dos jogos eletrônicos no Brasil. Até então, havia menor clareza sobre seus efeitos no bolso do brasileiro e, sobretudo, sobre suas consequências. Derrocada financeira, desestruturação familiar, adoecimento mental, e até, em situações mais trágicas, suicídios, compõem os desdobramentos da ludopatia: o vício em jogo. Mas, como o “liberou geral” da jogatina era recente, seus efeitos ainda não eram tão mensuráveis.
Pois bem: o tempo passou e os levantamentos ganharam robustez, graças às séries mais longas de informações. O que se debatia em tese, assumiu maior nitidez com sustentação em números. E estes números trazem um cenário alarmante.
No país dos juros estratosféricos, o brasileiro gasta mais com jogo do que com crédito e juros. É isso aí: na média, boa parte da renda vai para o poço sem fundo das bets, para felicidade dos donos dessas arapucas digitais. Frustrado com a ilusão de ficar rico jogando, com seu orçamento desfalcado, o brasileiro médio direciona seu azedume para o alvo mais conveniente: o governo.
Pré-candidato à reeleição, acuado pela avaliação negativa de sua gestão, o presidente Lula até falou na proibição total das bets no Brasil. Demorou para se manifestar, mas revelou o que os mais sensatos pensam a respeito da jogatina no país. Mais do que um impulso individual, no agregado o vício vem produzindo efeitos nocivos sobre a economia, conforme atestam inúmeros levantamentos.
O problema é convencer o Congresso a adotar a medida. Lá, o lobby da jogatina é poderoso e mobiliza sabe Deus quantos parlamentares. Comenta-se que muitos são sócios ocultos e atuam para sustentar o descalabro que vem condenando muita gente a abrir mão do pão, da carne, da roupa e do calçado em nome da fantasia de ganhar dinheiro sem esforço.
É difícil fomentar um debate maduro sobre esta questão – e sobre muitas outras também – num país cujos parlamentares investem no histrionismo, na aberração, no radicalismo e em debates rasos insuflados pela ditas redes sociais. Quem colocou esta gente lá? Quem vive devorando notícias sobre famosos e propagando fake news pelos aplicativos de celular. A encruzilhada é complexa, como se vê.
Como já mencionado, Lula, possivelmente acossado pela avaliação negativa do seu governo, falou o que já deveria ter sido dito há bastante tempo. Não foi o melhor começo para discutir a questão, mas, de qualquer maneira, é um ponto de partida. Criminosos de colarinho branco, milícias e facções já representam problemas demais para o já esgarçado tecido social brasileiro, para recorrer a uma clássica e repisada expressão.
Proibir as bets e reverter a condição brasileira de recente paraíso da jogatina é um passo importante e, certamente, menos complexo que combater os criminosos de colarinho branco, milícias e facções e suas teias intrincadas. Mas, seguramente, terá efeitos positivos, inclusive sobre os criminosos de colarinho branco, milícias e facções, que também dispõem de suas bets...
De forma acessível e transparente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, vem divulgando uma série de informações fundamentais para se conhecer – e entender – o lugar em que se vive. Os números, referentes ao Censo 2022, estão disponíveis não apenas para satisfazer curiosidades, mas, sobretudo, para orientar a formulação de políticas públicas, algo que, a propósito, ainda não se tornou corriqueiro no Brasil, sobretudo nas gestões em nível municipal.
A Feira de Santana, por exemplo, possui uma série de singularidades. Capitaneia uma região metropolitana, mas não se encaixa no arquétipo das grandes metrópoles – quase sempre capitais – nas quais se acotovelam milhões de brasileiros, disputando espaços exíguos. Aqui, a quantidade de habitantes por quilômetro quadrado alcança 472,45, número bem mais confortável que em São Paulo (1.521) e Salvador (3.486).
Alguns bairros da Feira de Santana, porém, apresentam números espantosos, sobretudo em antigas comunidades localizadas no interior do Anel de Contorno. É o caso da Rua Nova, com seu 0,68 quilômetro quadrado de extensão, 12.197 habitantes e impressionantes 17.999,92 moradores por quilômetro quadrado. Praticamente 18 mil, portanto.
Vizinho à Rua Nova localiza-se o Calumbi. São tão próximos que, para quem não os conhece, constituem um bairro só. Pois o Calumbi, com seu 1,59 quilômetro quadrado de extensão e população de 20.679 pessoas, alcança 12.986,56 habitantes por quilômetro quadrado. A densidade é menor, mas, mesmo assim, impressiona.
Com densidade superior à do Calumbi existe a Chácara São Cosme, outro bairro antigo da Princesa do Sertão. O território é minúsculo - 0,23 quilômetro quadrado – a população soma 2.961 pessoas e a densidade é um pouco maior que a do Calumbi, com 13.065,09 moradores.
O Jardim Cruzeiro é contíguo à Rua Nova e também conta com elevada densidade demográfica para os padrões feirenses. São 8.816,82 habitantes por quilômetro quadrado, superando bairros populares como a Queimadinha, com 6.890,53 moradores por quilômetro quadrado e as Baraúnas, com 4.831,05.
É bom lembrar que, nestes dois bairros, existem corpos d’água, obviamente inabitados. A população local espreme-se em ruas estreias e povoadas, como pode atestar quem conhece as duas comunidades. Considerando somente as áreas habitáveis, a densidade populacional deve ser maior.
Basicamente, os bairros mais densamente povoados da Feira de Santana são antigas ocupações que, ao longo de décadas, passaram a contar com infraestrutura e serviços públicos. Inicialmente à margem do núcleo originário do município, efetivaram-se ao perímetro urbano, à medida que a cidade se expandia.
Em suma, os números do Censo 2022 do IBGE trazem um rico acervo para planejar o futuro das cidades com técnica e precisão. Informação é o que não falta.