Não há dúvidas que Gilbert Lucas, a diretora da Fundação Hospitalar que administra o Hospital da Mulher, faz um bom trabalho, fato que pode ser confirmado pelo prestígio do hospital entre as mulheres que desejam fazer seu pré-natal ou ter um filho, em segurança. No entanto, a morte de 3 crianças por superlotação na Unidade, trás a inquietante e dolorosa sensação que algo está errado no sistema de assistência a gestante em nossa região.
A direção alega que o problema é que dos 3684 internamentos desse ano, 642 foram de outros munícipios. Bem, se dividirmos 642 por 4 meses teremos 160,5 partos/mês ou 5,35 partos/dia. É claro que, para quem está lotado, cinco partos/dia é uma sobrecarga, mas é dificil crer que o tamanho do problema de parto na cidade seja o acréscimo dessa quantidade de partos/dia, ou que isso seja a justificativa dos fatos.
O que fica claro é que o sistema está subdimensionado. Não se trata, nesse texto, ainda, de firmar responsabilidades, pois, exige-se outras análises. O que queremos apontar, inicialmente, é a necessidade de ampliação do Hospital, a responsabilização judicial dos múnicipios que praticam a " ambulancioterapia"- e o MP pode ser provocado a respeito-, e a necessidade imperiosa que o Estado resolva essa questão regional, investindo, repactuando, ou ampliando, a limitada maternidade do Hospital da Criança.
Independente da responsabilidade a única coisa irrecuperável e que não pode mais ser permitido é ter mães impotentes- pois, dependem dos seviços públicos- que perdem seus filhos antes mesmo da chance de conhecê-los.
O Brasil é um território inóspito ao cidadão honesto, sabemos bem, mas tem gestos que superarm qualquer surrealismo criativo. O famoso indulto de Temer que reduzia as penas de criminosos de colarinho branco foi validado pelos Ministros Alexandre de Moraes, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello, Gilmar Mendes, Celso de Mello e Dias Toffoli, do STF. Ou seja, todo esforço da Justiça está sendo jogado fora por ex-presidente criminoso- felizmente preso-, com o aval, apoio, da Suprema Corte, que tornou a Presidência um poder acima de todos os outros, afinal, o indulto é " um ato discricionário do presidente da República" que pode ir além de qualquer limite. É inacreditável como se bate e tripudia do cidadão, nesse país.
Só nos resta, como Kurtz, no fantástico livro Coração nas Trevas, de Conrad, descrever a perda de limite entre o civilizado e o selvagem repetindo suas palavras: "O horror, o horror".
Não se pode tomar toda Universidade brasileira pelo bando que anda nu, fazendo oficina de masturbação, ou pelos que fazem doutrinação ideológica - isso é mais a parte do que o todo-, pois, é desrespeitoso, injusto, e até mau caratismo, com tantos professores sérios, pesquisadores, que formam uma imensa legião de alunos e contribuem com o engrandecimento do ensino no país.
Por outro lado, não se pode fingir que vivemos o estado da arte da administração e da ciência nas Universidades, com oferta equilibrada do pensamento, sem necessitar de ajustes. Esse, deve ser feito, mas é preciso cuidado para que não nos tornemos massa de manobra para atender aos objetivos mais diversos, inclusive a redução de verbas, e o descompromisso governamental com o ensino superior. E, também, para que não permitamos que a crítica necessária, mas de proporção inadequada e de forma generalizada, como se balbúrdia fosse o mantra de nosso ensino e não uma pérfida e infeliz figura de linguagem do Ministro, destrua nosso arcabouço de ensino e tantas pessoas sérias, com biografias admiráveis, que existem nas Universidades e instituições similares.
O desmerecimento universal, mais pune o justo, do que o pecador
Não se chega ao surto de uma doença, sem falha e responsabilidade do Sistema de Saúde. Feira está vivendo um surto de Dengue- é a única cidade baiana em surto-, com 5975 casos suspeitos( acrescente-se aqui os que nem sequer são registrados), 1511 confirmados, com 6 mortes e mais 6 em investigação, o que pode levar ao dobro de vítimas. Nesse ano Feira já concentra 51% dos casos notificados, no Estado. É inaceitável, na segunda cidade da Bahia. A situação é uma emergência e exige um Plano de Ação imediato, eficaz, amplo, por parte do governo para corrigir a situação.
Entre essas ações, que exigem intervenção multisetorial, podemos destacar algumas: retreinamento e capacitação das equipes de Saúde, facilitação da realização dos exames básicos de hemograma, plaqueta- imediatos-, e sorologia, exigência e fiscalização do cumprimento do protocolo de atendimento a casos suspeitos, estabelecimento de Unidade para atendimento de casos graves, contratação de médicos para as vagas que estão descobertas para conferir amplitude a rede, e agilidade ao atendimento, visto que, nesses casos, tempo é sobrevida.
Por outro lado, é preciso investir em campanha maciça de esclarecimento, de alerta a população, pois, seu envolvimento no combate ao mosquito, é fundamental. Além disso, é preciso organizar mutirões de limpeza, ampliar as ações da Vigilância Sanitária, com apoio do MP e Guarda Municipal, ou mesmo Polícia, se precisar acessar áreas difíceis, buscar parceria com o Exército e outras entidades que possam colaborar, ampliar o trabalho dos Agentes de Endemias, nas áreas piores. É preciso monitorizar os índices de infestação, fazer o bloqueio nas áreas infestadas, e combater o vetor com uso do inseticida. Aliás, a essa altura os dados já são mais que evidentes. É imperativo que se amplie a relação com a Secretaria de Saúde do Estado para que ela tenha uma ação muito mais firme e efetiva, pois, o mosquito não escolhe eleitor e a cidade está sofrendo.
Essas são algumas das medidas e outras podem ser sugeridas pelos especialistas. O que não é possível é aceitarmos 12 vidas perdidas – ou uma única-, por uma doença evitável. Evidente que algumas dessas ações estão acontecendo, mas não adianta rebater que os Agentes de Endemias estão atuando, que a ação A ou B, está sendo feita, porque se estamos em surto, se crianças estão perdendo a vida , é porque o tamanho, ou a forma da ação, está inadequada e isso é indiscutível.
O governo precisa responder a Sociedade feirense com presteza e firmeza, sob o risco de morrer engasgado com um mosquito.
O dinheiro público é escasso e governo, como ensinou Margareth Tatcher, não produz dinheiro. Toda recurso que ele tem vem do bolso do cidadão, de seu trabalho, de sua capacidade produtiva, ou empresarial. Assim, é preciso que o governo seja austero em sua manutenção. Não é mais possível tolerar desperdício, máquina pública inchada, aparelhada, ineficiente, porque toda ação administrativa executada sem expertise, sem otimização de seu potencial, é um custo desnecessário e mau uso do recurso.
Isso inclui o Congresso, o incontrolável Judicário, e o Executivo, cada um com suas mordomias absurdas e particulares. Do mesmo modo, Agências, Institutos, Universidades, precisam ser cobradas, avaliadas. Não é só receberem dinheiro público, apelar para o escudo e oportuno discurso da autonomia- eu nunca vi autonomia de quem vive com o dinheiro dos outros- e não ter resultados pactuados a serem atingidos, coletivamente, e não apenas em unidades pontuais. Tem de ter meta, parâmetros de qualificação, para gerar retorno do investimento de forma objetiva e não aleatória, afinal, como já dizia o poeta Paulinho da Viola, dinheiro na mão é vendaval.
A Sociedade precisa exigir corte das mordomias nos Três Poderes, otimização da aplicação de recursos, cumprimento de metas, eficácia da máquina pública, pois, não podemos sobreviver expostos a essa DERRAMA FISCAL, que faz nossa carga tributária ser 32% e ainda arcarmos com os serviços que não temos. Não é arrecadação, é extorsão legalizada.
Vamos reagir, focar no importante, e esquecer os debates irrelevantes.