Homem simples da zona rural, nascido em Governador João Durval, antigo Ipuaçu, o vereador Jurandy Carvalho é um inquieto líder comunitário com forte envolvimento nas atividades econômicas locais. Atua junto à agricultura familiar e aos pescadores que sobrevivem do rio Jacuípe. Incentiva as tradições, eventos populares como a grande Festa do Vaqueiro. Na Câmara, onde atua com destaque, apresenta perfil de certa independência, embora governista. Não costuma poupar a gestão, diante de deficiências. Especialmente se dizem respeito aos distritos.
Jurandy não figurava na lista dos favoritos, em sua primeira eleição. Concorrendo à época pelo PL, obteve 2.512 votos e garantiu uma vaga na Câmara por média - distribuição de cadeiras após o preenchimento do quociente partidário. Mesmo detentor de mandato, também não se apostava alto em sua reeleição, em 2024.
Um fato, no entanto, o fez deslanchar nas urnas. O então deputado estadual e candidato a vice-prefeito, Pablo Roberto, rompeu politicamente, às vésperas do pleito, com o seu aliado de quase duas décadas, vereador Pedro Américo, migrando seu apoio nas urnas para Jurandy, agora no PSDB. Ele estourou de votos como ninguém esperava: 4.374 sufrágios.
PRÉ-CANDIDATO A DEPUTADO ESTADUAL E SEM RECEIO DE COLBERT
Jurandy tem afirmado em pronunciamentos na Tribuna da Câmara e também em entrevistas que se sente desestimulado a concorrer a um terceiro mandato. Foi o que ele repetiu em uma breve entrevista à coluna, direto de Brasília, nesta quarta-feira - onde aguardava a chegada de Pablo para contatos com dirigentes nacionais do PSDB. O desânimo, porém, com o cargo de vereador, está em contraste com o acalentado desejo de chegar à Assembleia Legislativa, em outubro próximo.
Garantiu que mantém firme a sua pré-candidatura, que vem divulgando desde janeiro do ano passado. Para ter mais tempo em pré-campanha, licenciou-se da Câmara, em dezembro do ano passado. Foram quatro meses afastado do Legislativo, período em que o seu suplente, Albino Brandão, ocupou a vaga. Retornou às funções no início do mês de abril, por imposição do Regimento Interno. Pensa, no entanto, em afastar-se mais uma vez em junho, visando dedicar-se exclusivamente ao trabalho político para alcançar a Assembleia.
Mas e a concorrência que poderá enfrentar com o ex-prefeito Colbert Filho, que se filiou ao PSDB nos últimos horas do fim do prazo eleitoral e já anunciou que é também pré-candidato a deputado estadual? Afinal, se trata de um peso-pesado, raposa felpuda da política na Bahia, aliado e muito amigo de Pablo e que deverá disputar com ele o crucial apoio do vice-prefeito.
Em tese, Colbert seria favorito à prioridade de Pablo, que lhe teria dívida de gratidão contraída em 2024, quando o então prefeito feirense o colocou nos ombros, com máquina municipal e tudo, para sua eleição a deputado. Afirma Jurandy: "não tenho nenhum receio e confio plenamente na palavra do amigo, empenhada em meu apoio".
SOBRE ZÉ RONALDO: TENHO CERTEZA QUE NÃO ME FALTARÁ
O principal representante político de Ipuaçu diz que seu amigo de longa data, Zé Ronaldo, faz bom governo e está confiante em contar com sua ajuda na empreitada rumo à Assembleia: "Mantemos uma excelente relação, honramos os compromissos um com o outro e tenho certeza que ele não me faltará. É sem dúvida um apoio muito importante neste desafio que devo enfrentar".
Que política é "como nuvem", não resta dúvida,
repetia sempre o advogado, bancário, dirigente de agremiação social e também do
Bahia de Feira, vereador, prefeito e deputado federal José Falcão da Silva.
Pelo visto, a nuvem mudou muito abruptamente de lugar, deixando de chover na
horta de Pablo Roberto, jovem ex-vereador que se tornou nome de peso na
política regional, eleito deputado estadual em 2022 e vice-prefeito em 2024. É
o principal nome do PSDB local. Se tornou tão complicada a sonhada
conquista de uma vaga na Câmara dos Deputados que ele desistiu da
candidatura.
Nos meios políticos, busca-se identificar os reais motivos do
recuo de uma decisão que parecia consolidada. Pablo chegou a admitir a disputa,
dentro do mesmo grupo liderado pelo prefeito Zé Ronaldo, entre ele e o
empresário Zé Chico. A este coluna, afirmou, em 26 de março, contar com
"elementos técnicos e estudos" que dariam sustentação à sua
candidatura. Uma semana depois, em 2 de abril, anunciou permanência na
Secretaria Municipal de Educação, em vez do esperado afastamento do cargo, para
concorrer.
PSDB COM BAIXA EXPECTATIVA PARA FEDERAL
Ouvi a opinião de três fontes acerca do que poderia ter
motivado a desistência - a segunda, nas duas últimas pré-campanhas,
protagonizadas pelo promissor político feirense, mais bem votado da história da
cidade para a Assembleia Legislativa. De acordo com um experiente quadro do
ninho tucano, o PSDB é um partido com perspectiva de eleição, em outubro
próximo, de um apenas um deputado federal, como registrado em 2022, ou, no
máximo, garantirá duas cadeiras na futura Câmara.
Esta fonte entende que Pablo, até pouco tempo, seria o número
dois, na ordem hierárquica prevista para as urnas, posto que o deputado federal
Adolfo Viana, único da legenda eleito no pleito anterior, é fortíssimo para seu
terceiro mandato. O ex-deputado estadual feirense sonhava, assim mesmo, em
disputar o pleito na condição de segunda força. Suas chances, defendem alguns
analistas, seriam reais, de alcançar o objetivo.
CARLOS MUNIZ FILHO SURGE COMO SEGUNDA FORÇA
Uma outra fonte consultada pela coluna apresentou um
complemento a este cenário que pode fechar o diagnóstico. Pablo teria
perdido a disputa interna para Carlos Muniz Filho. O pai dele é o
vereador soteropolitano Carlos Muniz, muito forte junto ao prefeito de
Salvador, Bruno Reis, e ao mentor deste, ACM Neto - ambos do União Brasil,
porém, com grande influência e poder de decisão no PSDB baiano.
Além dos favoritos Adolfo Viana e Muniz Filho, o partido
ganhou recentemente mais um nome de peso, Flávio Matos, ex-presidente da Câmara
Municipal de Camaçari e candidato a prefeito nas eleições de 2024 quando ainda
estava no União Brasil. Derrotado, ele se filiou agora em abril ao PSDB visando
a disputa de uma vaga na Câmara Federal. Mesmo que Pablo também se
candidatasse, a legenda não teria expectativa de eleger três federais, salvo
por um milagre.
DIVISÃO DE VOTOS COM ZÉ CHICO
Além de ter perdido o status de número 2 dos tucanos nesta
briga, o vice-prefeito de Feira de Santana ainda teria que lidar, em sua
cidade, com a divisão de votos entre ele e Zé Chico, pois assim provavelmente
orientaria Zé Ronaldo. O empresário fará a terceira tentativa de chegar a
Brasília - portanto, experiente na batalha e, agora, mais forte do que nas
tentativas anteriores - o que enfraqueceria ainda mais as possibilidades de
Pablo.
No evento de apresentação dos bons resultados obtidos pela
rede municipal de educação, sob o seu comando, o secretário ouviu do prefeito
um pedido para que continuasse no cargo, diante da evolução registrada em
2025 - ou o chefe do Executivo já sabia da inviabilidade e apenas entregou-lhe
um bom argumento? A terceira fonte ouvida sinalizou para a possibilidade de um
compromisso político futuro interessante, que teria se estabelecido com
Pablo, por sua desistência.
Com ou sem acordo, o fato é que, 48 horas depois de bater em
retirada, o vice-prefeito insinuou em suas redes sociais que teria sofrido
traição, mensagem que afasta a hipótese dele ter saído de cena por uma decisão
consensual e confortável. A indireta parece ter Salvador como endereço. Vamos
ver, como fica, a partir de agora, a excelente relação que o ex-deputado
estadual mantém com Adolfo Viana, ACM Neto, Bruno Reis e companhia.
Maior expressão do Partido dos Trabalhadores em Feira de Santana e região, o atuante deputado federal Zé Neto vem administrando, com bom jogo de cintura e tranquilidade, eventuais reações pelo brusco retorno, ao partido, do deputado estadual e ex-secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Ângelo Almeida. "Foi um competente secretário, que contribuiu com a cidade e com a Bahia, é um bom quadro da nossa política e, portanto, muito bem-vindo de volta", disse hoje à coluna, enquanto se dirigia para a Câmara, em Brasília.
O discurso conciliador da principal liderança petista regional é importante para apagar algumas chamas que se espalharam em seu grupo político após a filiação de Ângelo, que surpreendentemente deixou o PSB. Na primeira passagem do deputado estadual pelo PT foram oito anos integrando a legenda, pela qual se elegeu vereador em Feira de Santana. Em 2015, migrou para o Partido Socialista Brasileiro, onde permaneceu por uma década.
"Vamos manter em Feira de Santana o grupo comandado pelo governador Jerônimo Rodrigues em harmonia e diálogo", prega o deputado, jogando por terra qualquer aposta feita em uma reação contrária ao movimento político de Ângelo Almeida, ao apagar das luzes do prazo para migrações partidárias visando as eleições de outubro.
A leitura que fazem alguns personagens do grupo comandado por Zé Neto é que a chegada de última hora do deputado ex-PSB, candidato à reeleição, poderia dificultar a vida de outros dois candidatos locais à Assembleia Legislativa. Robinson Almeida, igualmente, busca a renovação do mandato, enquanto o vereador Sílvio Dias, policial rodoviário aposentado, vem buscando, inteligentemente, espaço maior no time em que joga.
É este incêndio que o deputado federal trabalha para controlar, até porque a filiação de Ângelo tem origem no patamar mais alto das hostes do PT no Estado, contra as quais o enfrentamento não seria uma ação prudente. "É saber como trafegar as três candidaturas, temos porte para isto", diz Zé Neto, ao registrar o valor dos outros dois postulantes à AL que já se encontravam na legenda.
"Robinson tem feito um extraordinário trabalho por Feira e região, inclusive mantém escritório político permanente aqui. Sílvio é um parceiro de todas as horas", disse ele, sobre estes aliados. Acredita que os "ruídos" dos primeiros momentos pela volta de Ângelo Almeida já se dissiparam e ele será um "reforço valioso" para os desafios de 2026 no município, as reeleições do presidente Lula e do governador Jerônimo.
O deputado também considera a presença de Ângelo no PT como relevante para 2028, quando acontece a disputa pela Prefeitura: "Já estivemos, um dia, muito distantes de conquistar nas urnas a oportunidade de administrar a nossa cidade, algo como 210 mil votos do outro lado contra 40 e poucos mil da gente. Na última eleição essa diferença foi de apenas 11 mil votos. Estamos chegando lá".
As últimas horas da data máxima para desincompatibilizações e
mudança de partido, visando às eleições de outubro, foram bastante agitadas, em
Feira de Santana, com algumas surpresas interessantes no tabuleiro político. O
ex-prefeito Colbert Filho, egresso do MDB, é uma das novidades.
Aproximadamente um mês após assumir o Democracia Cristã (DC),
migrou, agora, para o PSDB. Ele disse à imprensa que essa movimentação teria
sido acordada com o prefeito de Salvador, Bruno Reis, e com ACM Neto, estrelas
do União Brasil no Estado. Colberzinho, nomeado no gabinete de Bruno desde o
ano passado, parece fortemente vinculado a essas duas lideranças.
Imediatamente depois de ter a sua ficha de filiação abonada
pelo deputado federal Adolfo Neto, agora seu companheiro de legenda, o
ex-prefeito anunciou o desejo de disputar uma vaga na Assembleia Legislativa.
Deve ter mudado de ideia. Acertadamente, diga-se, pois parece mais prudente
decidir por um voo mais modesto.
Recentemente, a esta coluna, havia dito que, caso o aliado
Pablo Roberto desistisse de candidatar-se a deputado federal, ele próprio
entraria nessa briga. No entanto, logo após o vice-prefeito ter anunciado que
não irá concorrer, Colbert movimentou-se, deixando o DC para tornar-se tucano
e, diferentemente do previsto, apresentando-se pré-candidato a deputado
estadual.
O cenário deve estar deixando preocupado o vereador Jurandy
Carvalho, também do PSDB, até então pré-candidato a deputado estadual, ungido
por Pablo. O vice-prefeito tem uma razoável dívida de gratidão com Colbert, que
certamente espera reciprocidade agora, nesta sua tentativa de retornar ao Poder
Legislativo. Portanto, Colbert surge com mais força, no mesmo grupo do qual faz
parte o atuante e jovem político filho do distrito João Durval.
Na cadeira de chefe do Executivo feirense, o então prefeito
trabalhou duro, com a máquina governamental, pela expressiva votação que Pablo
obteve na cidade, a maior da história de um político feirense para a
Assembleia, 42,6 mil votos. Evidentemente, uma divisão de votos não atenderia
as expectativas de nenhum dos dois postulantes, que poderiam morrer abraçados
em sua luta para chegar à praia.
Importante observar, o vice-prefeito e ex-pré-candidato a
deputado federal disse logo após a surpreendente desistência de chegar a
Brasília que a primeira das condições para qualquer político contar com seu
apoio em 2026 é estar filiado ao seu partido, o PSDB. Foi com esse argumento
que ele descartou, de pronto, ajudar a campanha do Zé Chico, do União Brasil.
Ronaldista como ele, o empresário vive, há mais de uma década, o sonho de
alcançar a Câmara dos Deputados.
Colbert, uma raposa velha e felpuda da política na Bahia, estrategicamente, tratou de habilitar-se, pouco importando que tenha passado o menor tempo de filiação a um partido, em sua trajetória. Se muito, chegou a dois meses no Democracia Cristã. Nessa altura, deve estar aguardando pela manifestação pública daquele a quem muito generosamente estendeu a mão, em 2022.
Estaria o vice-prefeito Pablo Roberto arrependido da decisão
de desistir de candidatura a deputado federal, anunciada na quinta-feira? A
pergunta surge oportuna depois de publicação, em suas redes sociais, de um
enigmático post, em que insinua ter sofrido traição no
processo. "Antes do domingo, há uma quinta-feira de traição",
escreveu o secretário municipal de Educação. Não há outra conclusão possível:
ele praticamente afirma ter sido traído, no dia em que anunciou o recuo, que
pelo visto não ocorreu de forma espontânea como tentou em princípio sinalizar.
"Uma sexta-feira de dor", acrescentou, dando a
entender que o dia seguinte à "traição" não lhe foi nada fácil
digerir. Após o "silêncio" do sábado, garante "vencer todas
as fases", como fez Jesus: "o domingo está chegando". Não
significa que amanhã deverá acontecer algo extraordinário. Certamente, ele
remete a um futuro próximo. Discurso um tanto contraditório daquilo que disse
Pablo Roberto em seu "dia do fico".
"Espero que essa decisão (de desistir de ser deputado
federal agora) seja entendida pelo povo de Feira de Santana. O nosso
sentimento, nosso desejo, nesse momento, é que possamos continuar aqui”, ele
disse, ao justificar a decisão. Na mesma entrevista, tratou de isentar
completamente Zé Ronaldo, de qualquer problema que possa ter ocorrido no processo.
"O prefeito sempre me deu a liberdade de escolher, como sempre, muito
sensato, muito pé no chão, muito consciente da realidade. Me ajudou nessa
decisão, que tomamos juntos.”
Nas explicações dadas na quinta-feira, agora chamado
indiretamente de dia da "traição", ele alegou que o seu próprio grupo
teria recomendado a desistência. Afirmou que "muitas pessoas" que
ouviu "cobraram muito isso, da confiança que foi depositada na última
eleição, que ainda está muito recente, de ter escolhido o prefeito José Ronaldo
para gerenciar a cidade e Pablo Roberto para vice-prefeito". Então,
enfatizou, "por respeito também à população de Feira de Santana, a nossa
decisão nesse momento é continuar aqui em Feira”.
Algo que também reforça a tese de um recuo sob pressão, por parte do vice-prefeito, é a negativa, de pronto, a um apoio àquele que sonhou com sua desistência como forma de evitar concorrência interna na disputa por vaga em Brasília. Rejeitou, peremptoriamente, ajudar Zé Chico na caminhada, sob alegação de que só terá chance de obter sua valiosa ajuda, para deputado federal ou estadual, quem for correligionário no PSDB.